DizVentura II

Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

Lamento sertanejo - Músicos rebatem críticas do futuro secretário estadual de Cultura, Luiz Paulo Conde

Luiz Paulo Conde abriu a porteira de críticas aos músicos sertanejos:

- Gosto muito de música, mas música de qualidade, seja popular ou erudita - disse o futuro secretário estadual de Cultura, em entrevista ao Segundo Caderno na segunda-feira passada. - Tudo menos Sula Miranda e Chitãozinho e Xororó. Essas coisas passam ao largo para mim, não quero nem saber. São Paulo deu uma contribuição negativa à cultura brasileira com esse folk fake, uma música caipira que não tem nada a ver com a cultura do país, é coisa americana.

Conde acionou seu berrante, mas os sertanejos não se comportaram como gado e abaixaram a cabeça. Ao contrário: eles reagiram em alto e bom som aos berros queixosos do secretário.

- O mercado fonográfico só não parou por completo porque nós, sertanejos, conseguimos vender CDs originais em época de pirataria - diz Bruno, da dupla Bruno & Marrone, que nos últimos seis anos vendeu mais de oito milhões de discos.

Os principais atingidos insinuam que o secretário talvez esteja alheio ao que se passa além de seu gabinete refrigerado no Centro da cidade.

- A música sertaneja é a voz e a melodia que vêm do interior, das fazendas, do gado, da gente simples. Quem sempre viveu numa grande cidade provavelmente não conhece essa outra cara do nosso tão rico Brasil, com toda sua diversidade cultural - lamenta Chitãozinho.

Na entrevista, o atual vice-governador completou:

- Cultura brasileira é Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim...

- Cultura brasileira é Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, Sula Miranda, Zezé Di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, e muito mais. Inclusive Tonico e Tinoco, que são os maiores representantes da música caipira do país, e nos deram o título de "dupla Coração do Brasil" por representarmos a verdadeira música sertaneja brasileira - devolve Xororó, lembrando que a dupla ganhou um Grammy latino por um CD que tem várias influências musicais, como a participação do rapper Cabal.

Em suas declarações, Conde ficou sozinho - a exemplo da rês desgarrada da música "Lamento sertanejo", de Gil e Dominguinhos, que caminha a esmo "nessa multidão boiada".

- Puseram o rótulo de música popular brasileira em músicos e cantores clássicos como Chico, Djavan, Caetano e Ivan Lins - diz Sérgio Reis. - Mas, na realidade, popular significa populoso, de grande alcance. E não há nada mais popular que a música sertaneja, que representa o sertão brasileiro, o que significa o Brasil todo, do Norte ao Rio Grande do Sul. Não somos considerados representantes de música popular brasileira devido a rótulos e preconceitos, quando, na verdade, somos os grandes representantes da MPB, pois nosso alcance e nossa popularidade atingem todas as partes e classes sociais do Brasil.

Os sertanejos argumentam que o secretário tem todo o direito de ter suas preferências musicais, mas daí a desprezar publicamente o gênero que melhor traduz o modo de vida do homem do campo há léguas de distância.

- Pena uma pessoa que só pensa em suas origens e gosto pessoal ocupar um cargo de interesse comum de um estado - diz Bruno. - Talvez ele seja tão centrado em seu universo que não tenha tido tempo de perceber o quanto o segmento popular, na concepção exata da palavra, seja importante. O secretário tem por obrigação se preocupar com a cultura do estado. Espero que ele tenha a humildade de sair de seu acervo pessoal e descubra o acervo do povo. Povo que ele tem a obrigação de servir, gostando ou não do estilo musical.

A jornalista Rosa Nepomuceno, autora do livro "Música caipira - Da roça ao rodeio", concorda.

- Subentende-se que um secretário de Cultura seja um cara aberto. Tenha suas preferências pessoais, mas saiba dar valor às coisas. Ele pode não ser um apreciador da música rural, não ter tido contato com ela por ser urbano, mas tem que respeitá-la, já que ela está na raiz da nossa música popular brasileira.

Ela diz que se trata de uma "música-mãe", que nasceu da mistura da música indígena com a portuguesa, e que influencia outros gêneros:

- Tom Jobim, Edu Lobo, Luiz Gonzaga, Alceu Valença jamais falariam isso. Todos os grandes compositores beberam nessa fonte rural. E, como dizia o genial Tião Carrero, maior violeiro da história da música de viola, só existem dois tipos de música: a feia e a bonita. Assim como pode ter a bossa nova ruinzinha, pode ter a sertaneja excepcional.

Sem querer entrar em polêmica, o cineasta Breno Silveira faz coro ao dito de Carrero:

- O chato é a generalização. Existe a boa e a má música sertaneja - diz o diretor de "2 filhos de Francisco", que refaz a trajetória de Zezé Di Camargo e Luciano, e levou 5.319.677 espectadores aos cinemas. - Quando eu era moleque, escutava muito outra generalização. Falavam que Roberto Carlos era cafona, brega.

Breno diz que seu filme é uma história de amor, com uma temática universal, que independe da música sertaneja, mas reconhece:

- O filme me deu a chance de conhecer um universo que me surpreendeu totalmente. Não esperava essa força.

A última vez que os sertanejos foram laçados por tantas críticas tem 13 anos. Mais especificamente quando Lulu Santos, no "Domingão do Faustão", disse que a música sertaneja era a trilha sonora do governo Collor. À época, cunhou-se até o termo música breganeja. De lá para cá, Collor foi apeado da Presidência, vai voltar ao poder como senador, e Lulu esclarece que nunca disse que "espingarda de cano duplo serve para matar dupla sertaneja". O cantor explica que suas críticas foram confundidas como uma atitude meramente contrária à música sertaneja.

- Era uma cobrança à postura política e cidadã daqueles artistas todos que, uma semana antes do impeachment do Collor, estavam na Casa da Dinda, cantando "Parabéns pra você" na festa de aniversário do presidente - garante.

Lulu Santos diz que a última coisa que quer é ter uma postura preconceituosa - mês passado ele participou de show com Sandy e Júnior, filhos de Xororó.

- A música caipira encontra eco muito grande no povo brasileiro, inclusive no povo do Estado do Rio. É vazio dizer que é coisa americana, como se hip hop, funk e até o samba não tivessem o mesmo tipo de input da música dos Estados Unidos - observa, antes de baixar a porteira da discussão: - Qualquer discurso de exclusão é muito perigoso. Soa mal ao ouvido.

Texto de Zezé Di Camargo:

Nada mais que uma preferência pessoal - Arrogância de achar que só próprio gosto seja qualidade

Causa-me estranheza que um secretário da Cultura reduza sua compreensão sobre a cultura nacional a três nomes (Chico, Edu Lobo e Tom). Três gênios, é verdade, mas representantes de um gênero único diante de uma gama imensa de cores e ritmos que compõem o cenário nacional. Apegar-se à qualidade para justificar o que nada mais é que um gosto pessoal, desculpe-me a arrogância, mas soa a arrogância. É como alguém que considera que seu próprio gosto, e só ele, seja associado a qualidade.

Ora, se a interferência de estrangeirismos na nossa tão prezada cultura de raízes é tão maléfica, deveríamos ignorar o que os africanos representam na música e na culinária baiana? Deveríamos refutar as interferências européias, e em especial as portuguesas? Vamos derrubar cada traço francês e inglês na arquitetura? E que tal apagarmos as contribuições do hip hop e do funk aos movimentos sociais?

Não cabe na minha concepção desprezar tudo isso. É como dar as costas à miscigenação, termo essencial na riqueza da nossa cultura. E até me dá um cacoete de clichê ao repetir isso tudo, mas como eu haveria de imaginar que um secretário da Cultura se comporte, não como formador de opinião, mas como a própria expressão da opinião?

Ao menos fico a imaginar, quem sabe agora, já que a questão é prezar nossas raízes, que talvez possamos enfim, depois de 506 anos, dar mais atenção à cultura indígena. Ainda estamos em tempo de salvar algumas das línguas das etnias que resistiram a tantas interferências e descaso. Aliás, a música sertaneja (mesmo com todos os acordes importados que trafegam sem resistência em outros gêneros e só são "proibidos" por falsos puristas ao som dos "caipiras") se aproximou bem mais da questão indianista do que as nossas políticas públicas - o que não é lá muito difícil, convenhamos.

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Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Reportagem sobre Dom Pedro I

O Herói sem caráter que fez a Independência - Biografia de Dom Pedro I mostra contradições do príncipe e apresenta bastidores da vida pública no século XIX

Há exatamente 184 anos, um príncipe ao mesmo tempo mal-educado e cativante, xucro e inteligente, corrupto e popular garantiu a Independência do país.

- Ele é o personagem mais fascinante da História do Brasil - diz a historiadora Isabel Lustosa, autora de "D. Pedro I".

Lançada em abril pela Companhia das Letras, a biografia já vendeu 5.500 exemplares ao mostrar a trajetória de um homem que aos 22 anos já governava o país, aos 23 fez a Independência e aos 36 morreu cercado de glórias em Portugal.

O livro, com 344 páginas, é um riquíssimo e ilustrativo passeio pelos bastidores da vida pública brasileira no século XIX. Mostra, por exemplo, que custou caro ao Brasil ter a Independência reconhecida. Pelo acordo, o país assinou uma cláusula secreta em que pagou à Inglaterra 1,4 milhão de libras esterlinas. O dinheiro saldava as dívidas de Portugal com os ingleses. O detalhe é que os portugueses pegaram o empréstimo com os ingleses justamente para se armar e atacar o Brasil.

O dia 7 de Setembro é narrado com detalhes. Às 16h30m, afetado por uma disenteria que o obrigava a todo momento a apear-se do cavalo, declarou: "Amigos, as cortes portuguesas querem escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais." Mas só no ano seguinte é que aquele dia foi decretado como o da Independência.

- Havia outras opções. O 9 de janeiro, que é o dia do Fico. O 3 de maio, quando é instalada a Assembléia Constituinte. O 14 de setembro, quando ele chega ao Rio e é aclamado. O 12 de outubro, seu aniversário, em que é aclamado imperador. Todos esses episódios vão se sucedendo e só no ano seguinte, possivelmente por decisão dele, aquele dia é sacramentado - diz ela, que, como parte da pesquisa, chegou a comprar pela internet num sebo do interior da França uma biografia sobre ele escrita em 1955 por uma francesa.

D. Pedro I é um personagem ambíguo. Administrava o Império como se fosse um prefeito, mas deixou uma Constituição para o Brasil que vigoraria por mais de 60 anos. Foi arrogante e despótico ao longo do Primeiro Reinado, mas se misturava com o povo e era abolicionista. Chegou a escrever num texto: "Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros".

Era imoral e corrompido, mas teve energia para desafiar as Cortes portuguesas, que tentavam reduzir o Brasil novamente ao estágio de colônia. Foi um marido péssimo e cruel para Dona Leopoldina, mas, quando partiu para São Paulo, instituiu a princesa como regente provisória, fazendo com que ela se tornasse a primeira mulher a ocupar no Brasil a direção do governo.

A complexidade do biografado faz com que ela pegue emprestada a expressão de Mário de Andrade a seu Macunaíma e chame D. Pedro I de "Um Herói sem nenhum caráter" - "mas um Herói com H maiúsculo", frisa ela, que mostra no livro toda a importância de José Bonifácio para a Independência.

A figura de Dom Pedro I tinha algo de quixotesco e parecia saída de um folhetim, diz Isabel.

- Montava seu cavalo, causava arrebatamentos, foi para o campo de batalha, morreu jovem, levou o liberalismo para um Portugal mergulhado na Inquisição - explica ela. - Seu legado foi positivo, quando você pensa na unidade do país e na governabilidade que se tornou possível com a Constituição.

D. Pedro não tinha perfil de governante, mas nos momentos de tensão, como na Independência e na luta contra o irmão Miguel, foi brilhante. Em 1832, atacou Portugal numa guerra que duraria dois anos e arruinaria sua saúde. Seu exército contava com sete mil homens e um punhado de navios velhos. O do irmão, que tinha apoio popular, somava 80 mil homens e uma frota moderna. Mesmo assim, venceu. Mas, ao fim da guerra, estava acabado. Como escreve Isabel, "morreu em 24 de setembro de 1834, aos 36 anos, o rei, filho e neto de reis, defensor das instituições livres na América e na Europa, que dera constituições às suas duas pátrias e que deixou a filha reinando em Portugal e o filho, no Brasil".

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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Reportagem sobre dois teatros famosos que foram demolidos


Cai o pano - O fim de um mistério: a história da ascensão e queda de dois palcos que marcaram a vida da cidade

Duzentos operários, munidos de pás, picaretas e máquinas, encerraram de forma melancólica, em setembro de 1937, a trajetória de um dos mais luxuosos teatros que o Rio já viu. Mas a demolição do Theatro Casino - e do prédio vizinho, o Casino Beira-Mar - inaugurou também uma das mais misteriosas histórias da crônica cultural carioca.

Durante seus 11 anos de existência, o Theatro Casino e o Casino Beira-Mar, que ficavam nas extremidades do Passeio Público, no Centro, viveram altos e baixos. No apogeu, representaram uma época efervescente da vida da cidade, e abrigaram a cantora e dançarina americana Josephine Baker, bandas americanas de jazz, o pianista polonês Arthur Rubinstein, a cantora Carmen Miranda, os atores Procópio Ferreira e Paulo Gracindo, e o Teatro de Brinquedo dos atores Eugênia e Álvaro Moreyra - face modernista do teatro nacional. Também lançaram no país o gênero cabaré. Nos períodos de decadência, foram fechados.

A ascensão e queda das duas construções permaneceu esquecida até abril de 2004, quando, durante uma reforma no Passeio Público, foram descobertas as fundações do Casino Beira-Mar. A partir daí, a arquiteta Jane Santucci pesquisou o tema e recuperou uma história recheada de cenas glamourosas, episódios curiosos e pontos obscuros.

O Theatro Casino e o Casino Beira-Mar eram ligados por pérgulas e ficaram conhecidos como os pavilhões da esplanada do Passeio Público. Tudo começou durante as comemorações do centenário da Independência, em 1922, quando se planejou a construção de um restaurante destinado a recepcionar turistas da Exposição Internacional de arquitetura. Não deu tempo e a idéia desdobrou-se em dois prédios gêmeos, em estilo eclético.

Apesar dos nomes, não funcionavam como casa de jogo. Do lado esquerdo, ficava o Theatro Casino, batizado assim pelo escritor Coelho Neto. Com 500 lugares e três pavimentos, era freqüentado pela elite social e intelectual carioca. Como escreveu a "Revista da Semana", às vésperas da inauguração: "Vai o Rio ser dotado de uma sala de espetáculos na verdade digna dessa sociedade elegante e culta."

À sua direita, estava o Casino Beira-Mar. Seus salões funcionavam como casa noturna e serviam de palco de espetáculos internacionais. Virou ponto de encontro, freqüentado por "mulheres com seus vestidos de soirée cobertos de lantejoulas brilhantes e cabelos cortados à la garçonne", como diz Jane em "Os pavilhões do Passeio Público - Theatro Casino e Casino Beira-Mar" (Editora Casa da Palavra, R$25). O livro, fartamente ilustrado e com patrocínio da Secretaria municipal das Culturas, vai ser lançado hoje, às 19h30m, na livraria Dantes, no Cine Odeon - nas proximidades de onde ficavam os prédios.

A inauguração do Theatro Casino, em 18 de junho de 1926, com a peça "Sorte grande", de Bastos Tigre, encenada pela Companhia Jaime Costa, foi um acontecimento na vida carioca. "A nova casa se transformou na atração da cidade", escreve Jane. "Ambiente requintado, modernas instalações, um conjunto completo composto de um teatro sofisticado e com excelente acústica, disposto ao lado de salões luxuosos, abertos a terrasses de onde se podia vislumbrar a paisagem da Baía de Guanabara, ou, se voltados para o jardim centenário, a exuberante vegetação." O Casino Beira-Mar abriu no 31 de julho de 1926, com as dançarinas parisienses do Bat-Ta-Clan.

No ano seguinte, o Theatro foi adaptado e virou cinema. A MGM alugou o espaço para fazer pré-estréias. Foi um sucesso, mas depois o local mostrou-se inadequado para exibição de filmes, e, meses mais tarde, voltou a abrigar espetáculos. Seu ponto alto foi quando sediou o Teatro de Brinquedo. "Naquele momento havia a lacuna de um teatro que satisfizesse a classe média, evidenciando a necessidade de trazer gente de maior formação intelectual para as artes cênicas", detalha Jane. Era o teatro de vanguarda, que reuniu nomes como Di Cavalcanti, Lúcio Costa e Osvaldo Goeldi.

Paralelamente, no prédio ao lado, Renato Viana criava o projeto Caverna Mágica, que contou com o poeta Paschoal Carlos Magno e o ilustrador Roberto Rodrigues, irmão de Nelson. "No momento em que o gênero de revistas dominava a cena brasileira, o grupo apostava no teatro sério, pautado em textos literários", escreve Jane.

O auge do sucesso do Theatro aconteceu em 1933, com "Deus lhe pague", de Joracy Camargo, com Procópio Ferreira. Outro momento marcante se dá com o Teatro-Escola do teatrólogo Renato Vianna. Chancelado pelo presidente Getúlio Vargas, ele implantou sua idéia de renovação cênica e criação de um teatro brasileiro oficial. O Theatro tornou-se a sede do projeto, que estreou em 1934 com a peça "Sexo". No elenco, Itália Fausta, Jaime Costa e Zilka Salaberri, além da dançarina Eros Volúsia.

A peça, que tratava de temas como aborto e adultério, teve ótima repercussão de público, mas gerou reação dos moralistas. Houve protestos no Senado, passeatas e artigos furiosos de jornalistas. Vianna, com seu estilo centralizador, também criou atritos com a classe teatral. Alguns meses depois, a três dias da estréia de seu drama "Deus", ele recebeu intimação pedindo a desocupação imediata do imóvel, baseada em laudo técnico de que o prédio ameaçava desabar. Um decreto do prefeito dizia ainda que havia necessidade de resolver o congestionamento no tráfego de bondes, com o alargamento das vias do entorno do Passeio.

Durante os anos de 36 e 37, os dois prédios permaneceram abandonados, até que, às 14h de um sábado, os operários iniciaram a derrubada. A idéia era terminar o serviço logo, em 24 horas, usando picaretas. Mas, contrariando o laudo de que os prédios ameaçavam desabar, o Theatro Casino e o Casino Beira-Mar resistiram bravamente por cerca de três semanas. Foram necessárias várias cargas de dinamite para pô-los abaixo, numa demolição que o crítico Mario Nunes chamou de criminosa. Jane diz que não houve uma única causa, e sim uma soma de fatores, como o arrependimento do governo de entregar o teatro para Vianna, o fato de que na época as coisas do passado eram consideradas ultrapassadas e a visão dos modernistas de que a arquitetura eclética não tinha valor. Além disso, para o regime político em ascensão - no mês seguinte viria a ditadura do Estado Novo - era preciso acabar com os símbolos antigos.

- O Theatro Casino representava as idéias inovadoras e revolucionárias. Era necessário não deixar vestígios e mostrar que aquele era um novo momento - diz Jane. - Foi um ato extremamente arbitrário. Comente aqui:
Reportagem com livro sobre o escritor Antônio Maria

Biografia de Antônio Maria mostra ao leitor o outro lado do ringue - Marido opressor no livro de Danuza, ele reaparece com todas as suas facetas

É bem verdade que Antônio Maria andava com dor-de-cotovelo, mas não deixa de ser impiedosa a autocrítica que faz após a separação de Danuza Leão, em 1964: "Sou um mulato gordo. Quando tiro a roupa, a mulher sempre ri. Depois se acostuma, mas eu não agüento aquele primeiro riso novamente".

A falta de atributos físicos nunca o impediu de conquistar mulheres exuberantes - caso da própria Danuza. Apenas lhe dava mais trabalho, como quando se comparou a um amigo: "O Luís Carlos come a mulher com a cara. Eu, para uma mulher se interessar por mim, é preciso três horas de conversa até ela esquecer da minha cara."

O cronista reaparece de corpo e alma em "Um homem chamado Maria" (Editora Objetiva, R$32,90), do jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos. Na boate Vogue, conta Joaquim, os homens vestiam elegantes ternos do London Taylor's. Maria, que usava alpargatas e tinha o colarinho seboso, "vestia London Taylor¿s no papo".

Perfil fez justiça a um autor que andava esquecido

O livro foi lançado originalmente em 1996 pela Relume Dumará, na coleção Perfis do Rio, mas estava esgotado há um ano. Com o sucesso da autobiografia de Danuza, "Quase tudo" (Companhia das Letras), Joaquim achou que valia a pena atualizar o texto e reapresentar o personagem. O livro está com quase 50 páginas a mais, entre fotos inéditas e novas informações, recolhidas em depoimentos de parentes, em conversas com amigos do escritor, numa entrevista feita com Danuza e no diário que Maria escreveu em 1957.

Maria sai-se mal das páginas do livro de Danuza. Símbolo do homem que entendia as mulheres e que tão bem conhecia a alma feminina, ele aparece ali como vilão. Um marido opressivo e ciumento que transformou a vida a dois numa gaiola.

- Uma das graças deste livro de agora é que ele mostra o outro lado do ringue de um grande sucesso literário - conta Joaquim, que já tinha lançado duas coletâneas do cronista. - Danuza apresenta um Antônio Maria visto da intimidade do quarto. Eu trago a originalidade de um escritor genial. Se como marido ele não foi exatamente o melhor, lamenta-se a sorte da esposa, mas o grande escritor permanece acima de qualquer conflito conjugal.

Quando lançou o perfil de Maria, Joaquim fez justiça a um autor que andava esquecido desde sua morte, em 1964, aos 43 anos, vítima de enfarte. Era cardiopata e não se cuidava. Dizia-se "cardisplicente, isto é, homem que desdenha do próprio coração". O livro é a cara de Maria: uma bem dosada mistura de humor, melancolia e reflexão que envolve o leitor e o conduz a um saboroso passeio pelo Rio boêmio dos anos 50 e 60.

A biografia recupera um dos personagens mais queridos do Rio de seu tempo, dono de uma alegria exuberante, uma conversa sedutora, um papo irresistível e uma capacidade incomum de fazer amigos - e de depois brigar com eles. Estão lá o menino grande que fazia traquinagens e passava trotes, o homem da noite que batia ponto na Vogue, o repórter policial que perfilava os pés-de-chinelo da cidade e lhes dava grandeza, o workaholic que vivia às voltas com compromissos de trabalho, o profissional que se tornou o mais alto salário do rádio do país, o consultor sentimental que aplacava dúvidas dos leitores, o locutor esportivo que deixou para a posteridade a gravação do gol de Ghigia na Copa de 50, o tipo polêmico que adorava arrumar brigas pelo jornal e ao vivo, o autor de sambas-canções como "Ninguém me ama" e "Manhã de carnaval", o compositor de jingles e o pernambucano que, até firmar-se como cronista no Rio, passou fome, sofreu humilhações e foi preso.

Em relação à obra de 1996, o novo livro não mudou só de título - chamava-se "Noites de Copacabana". Ganhou também várias passagens. No capítulo "Danuza", Joaquim mostra a relação entre Maria - um pré-Shrek, com sua gordura, excesso de suor e falta de sofisticação - e um mito da sociedade carioca. O livro conta que os amigos ficaram enciumados com o recolhimento do escritor no período mais calmo de sua vida. Mas a relação se deteriorou e, segundo o livro, quem conviveu de perto com o casal ficou surpreso com as confissões de Danuza.

- O que eles criticam é ela ter valorizado os momentos ruins. O comportamento público mostrava um casal muito feliz, não havia pistas da infelicidade a dois.

Danuza seguiu para Paris, onde estavam o ex-marido, Samuel Wainer, e os filhos. "Encerrava-se uma impressionante história de amor. Maria não soube. Danuza também não colocou em seu livro. Uma semana depois de sair da casa da Fonte da Saudade, fugida em pânico, ela descobriu que estava grávida de Antônio Maria. Mas era tarde demais". Foi a forma elegante que Joaquim encontrou para tratar de um tema delicado: o aborto feito por Danuza.

Joaquim mostra como a fossa que tomou conta de Maria transbordou em crônicas amargas, sofridas, desesperadas. É com uma bela metáfora que ele faz um retrato do autor às vésperas da morte: "Naquele mês de outubro, que costuma dar os mais belos dias do ano, choveu tanto naquelas crônicas que dava a impressão de Maria, que tanto gostava de dirigir, ter embicado o Gordini rumo à Macondo de Gabriel García Márquez."
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Reportagem com as atrizes Íris Bruzzi e Carmen Verônica

Variações sobre a frescura - Ex-Certinhas do Lalau, Íris Bruzzi e Carmen Verônica brilham em 'Belíssima'

Ao telefone, a atriz Carmen Verônica sugere uns modelitos para usar nas fotos.

- Estava pensando em levar uma calça preta, uma camisa com estamparia, um terninho verde-água e uma blusinha com babadinho branco - propõe. - São variações sobre a frescura.

Frescura é uma palavra muito apropriada para a atriz de gestos largos, voz marcante, jeito exagerado e um enorme óculos escuros com armação de oncinha.

- Carminha é um veado operado - brinca Íris Bruzzi, colega de novela e amiga da atriz desde os tempos das Cruzadas, como gosta de brincar Carmen.

"Não te contei, não?". Este era o bordão que Carmen usava num programa de humor dos anos 70. Nem é preciso contar que as duas estão roubando a cena na nova novela de Silvio de Abreu, "Belíssima", no papel das ex-vedetes Mary Montilla e Guida Guevara.

Íris chega para a entrevista com um poncho cobrindo o braço direito, quebrado em dois lugares, após uma queda num caixa eletrônico de um posto de gasolina.

- Não tenho crença nenhuma, mas ganhei da minha comadre Vera um galho enorme de arruda e botei num vaso lindo no meu quarto. Mal não faz, e tem um cheiro muito agradável - diz Íris. - Todo mundo fala que esse meu tombo é olho grande. Acho que o pessoal não imaginava que a gente ia agradar tanto.

Carmen mandou "um mimo" para Íris - flores - e diz que sua empregada, Aparecida, tem rezado "loucamente" pela recuperação da atriz.

- Estou tão zen, tão bem educada. Tem amigas que dizem: "Você está calminha, falando num tom de voz tão baixinho." Explico: "São os remédios para a dor" - graceja Íris.

O papo corre solto, as duas fazem graça, lembram de Carlos Machado e Walter Pinto, reis do teatro de revista, e trocam gentilezas - ao contrário de suas personagens na novela, que se alfinetam o tempo todo.

- Antes de ser atriz, tentei vários trabalhos e nenhum dava certo - lembra Íris.

Ela quis ser comissária, mas o problema é que tem horror de avião. Chegou a trabalhar na Companhia Federal de Abastecimento e Preços (Cofap), mas o emprego durou um mês: não recebeu e descobriu que queriam dela outra coisa. Arrumou vaga na sessão de perfumaria da loja Sloper, mas ficou metade de um dia.

- Sou muito ruim de conta. Tinha que fazer percentagem, tenho trauma disso até hoje. Falei para minha avó: "Ninguém me quer, vou para a praia."

Um dia, estava nas areias de Copacabana quando Colé e Nélia Paula, que iam estrelar a peça "Carrossel de 53", perguntaram se não queria trabalhar no teatro. Tinha saído pouco antes do colégio interno de freiras e não fazia idéia do que era. Achou que seria um teste de matemática. Na hora, pediram que botasse um biquíni, e o empresário Zilco Ribeiro perguntou "e aí?" ao coreógrafo Norbert Nardoni, que respondeu: "200%".

- Pensei na hora: "Não passei. É muita coisa, algo está errado" - diz ela, que, lembram-se?, tem trauma de porcentagem.

Logo foi convidada por Carlos Machado para trabalhar em shows. Fez também peças, várias novelas - entre elas "Pecado capital", onde contracenava com Pedro Paulo Rangel, a exemplo do que acontece em "Belíssima" - e 22 filmes, como "Amor estranho amor" e "As cariocas". Na TV, ela começou pelas mãos de Fábio Sabag, que a convidou para ser a princesa Griselda no Teatrinho Troll. A Bela Bruzzi, como era conhecida, foi durante dez anos Certinha do Lalau, como eram chamadas as mulheres eleitas por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.

- Eu era muito bonita - lembra Íris Bruzzi.

- Você não era, Bruzzete, você é - corrige a amiga.

Carmen, outra Certinha do Lalau por dez anos, foi igualmente descoberta na praia. Estava no Arpoador quando a convidaram para fazer um teste em um show de Carlos Machado. Falou com a mãe, que autorizou. Assim, com 16 para 17 anos, ela começou a trabalhar. Para driblar a fiscalização, aumentou a idade na carteira.

- Tenho a minha carteira falsa guardada até hoje. Não mostro para ninguém porque estou mais velha do que na realidade sou - diz ela, de 72 anos, que trabalhou em programas como "Noite de gala", "Praça da alegria", "A Família Trapo" e "Show 73", de que também fazia parte Íris.

À época, parte da família enviezou o nariz para Carmen.

- Mas depois desenviezou. E hoje é aquele prazer, aquele orgulho em dizer: "É minha parente". Mas naquele tempo havia preconceito muito grande contra os artistas. A classe era vista como pior que Aids para contaminar. As mulheres eram encaradas como vagabundas que não mereciam o mínimo de respeito - lembra ela, que só fez uma peça de teatro de revista, "Doll face", de Mário Meira Guimarães.

Da época do teatro, as duas herdaram o profissionalismo.

- Trabalhava-se muito, eram 14 sessões por semana - diz Íris. - Você vê que eu, aos 70 anos, toda quebrada, com o úmero estilhaçado, estou aqui fazendo uma reportagem. Caí na sexta-feira, fiquei no hospital das 21h às 2h, e no sábado já estava gravando. Essa disciplina a gente traz do teatro. Ele dá responsabilidade de horário, de ensaio, de representação, de respeito aos colegas.

Elas festejam o atual sucesso:

- Pena que eu espere tanto tempo para trabalhar com o Silvio - diz Carmen, que antes fez "Deus nos acuda". - Não tem o cometa de Halley? O meu é o cometa Silvio de Abreu, que passa pela minha vida de 12 em 12 anos. Só não sei se vou estar inteira na próxima novela.

Na vida pessoal, as duas têm trajetórias bem distintas.

- A Carminha é a coisa mais tradicional que existe. Eu sou mais diversificada - diz Íris.

Ela foi casada três vezes. Primeiro com Walter Pinto, depois com o ator e arquiteto Nelson Caruso e, por fim, com Jorge Dória.

- Uma vez perguntaram quantos maridos eu tive. Respondi: "Maridos, três. Entretenimentos, muitos."

Carmen é casada com um empresário francês que conheceu nos tempos de Carlos Machado.

- Eu nasci casada - brinca ela, autora de frases irreverentes como: "A bunda cai, mas o talento fica."

Chegou a hora de Carmen ser maquiada para as fotos. Mal se senta em frente ao espelho e ela leva um susto. Todos ficam preocupados, achando que se machucou. Mas a atriz abre um largo sorriso e diz:

- Assustei-me com a minha cara. Quero uma maquiagem que me faça passar de bruxinha a boneca.

Algum tempo depois, as duas estão prontas para a sessão de fotos. Íris não resiste e brinca:

- Vou quebrar outro braço depois dessa reportagem.

Autor penou para encontrar Íris Bruzzi - Atriz vivia na Flórida quando foi chamada para atuar na novela

Silvio de Abreu criou as personagens Mary Montilla e Guida Guevara e, após convidar Carmen Verônica, perguntou a ela: "Quem você sugere para viver a Guida?". Carmen falou: "Ué, e a Íris Bruzzi?". O autor explicou que procuraram a atriz, mas não a encontraram. É que Íris estava na Flórida.

- Não estava fazendo nada, então fui para lá - conta Íris.

O filho Marcelo tinha sido eleito deputado e vice-prefeito de Tampa Bay. Mas a atriz não se acostumou à região.

- Achei muito chato. Não gosto de sol, de carro conversível. E gosto de dormir às 5h, enquanto o povo de lá se deita às 21h. Tinha grilinho cantando, sapinho coaxando. Odeio isso. A Flórida não é para mim - conta Íris, que, após muita procura, foi encontrada, para felicidade de telespectadores, Silvio e Carmen. - Silvio me ligou e perguntou: "E aí, você topa?". Falei: "Estou embarcando".

- Ainda bem que ele te encontrou. Se fosse outra atriz, não seria esse acidente assim, seria um empurrão meu - brinca Carmen, referindo-se ao braço de Íris.

Antes da Flórida, Íris morou dez anos em Nova York:

- Eu alugava e montava apartamentos. Aluguei para 25 mil pessoas, a maioria brasileiros. Mas, com a chegada do Bin Laden, o negócio acabou. Ninguém ia mais. Fiquei com 11 apartamentos vazios durante dez meses.
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Reportagem com livro sobre o Rio

Geografia literária do Rio - Antologia reúne textos ficcionais que têm a cidade como cenário

2005 foi o ano das antologias. Quer conhecer a "voz" da periferia? Cate nas estantes o livro "Literatura marginal". Procura uma compilação de textos femininos? Folheie "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira". Está entediado? Leia "Veneno antimonotonia". Busca histórias policiais brasileiras? Consulte "Crime feito em casa". Há outros exemplos recém-chegados às livrarias, como "A visita", "Tarja preta", "Contos sobre tela" e a série "Contos para ler...".

Natural que o ano se encerre com o lançamento de uma nova antologia, "Rio literário - Um guia apaixonado da cidade do Rio de Janeiro" (Casa da Palavra, R$ 52), que reúne 33 textos produzidos por 29 escritores entre 1960 e 2005, entre eles Rubem Fonseca, Ferreira Gullar e Antônio Torres. O livro, que será lançado terça-feira, às 19h30m, no Rio Scenarium, é ilustrado por 71 fotos de Bruno Veiga.

Em se tratando de Rio, o caminho óbvio seria recorrer à crônica, expressão literária mais identificada com a cidade. Mas Beatriz Resende, organizadora do livro, percebeu que o Rio das crônicas já é por demais conhecido. Além disso, é um gênero que identifica e detalha demais os espaços, quando a idéia era traçar não só a geografia física como também a cartografia sentimental e afetiva da cidade.

Beatriz abriu mão dos atalhos literários e reuniu poemas, contos e trechos de romances que, juntos, esboçam uma espécie de "biografia" do Rio - uma das muitas possíveis. A única crônica do livro é a que abre a antologia. Num trecho de "Estado da Guanabara", Vinicius de Moraes brinca com a fama de bon vivant que acompanha o morador da cidade: "Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem de seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo."

Ao mesmo tempo hospitaleira e hostil, tolerante e áspera, envolvente e traidora, graciosa e vulgar, a cidade do Rio, diz Beatriz, "apresenta-se inevitavelmente como espaço percebido numa relação amorosa". Nesta espécie de guia de viagem literário, o leitor encontra referências explícitas a bairros e alusões mais sutis à geografia carioca. No primeiro caso, estão, por exemplo, o Largo do Machado e o Catete, que ganham ruas e detalhes em trecho de "Um crime delicado", de Sérgio Sant'Anna. Mas há instantes em que se dispensam nomes, como faz Antonio Cicero, que fala do museu e do aeroporto em "O parque", numa menção ao MAM, ao Santos Dumont e ao Aterro do Flamengo.

Os 25 anos que separam o primeiro texto - de Vinicius - do último - "Sexta-feira de cinzas", de Marcelo Moutinho - estão visíveis no livro com o desaparecimento do Estado da Guanabara, a transformação da Confeitaria Colombo da Rua Barão de Ipanema em agência do Banco do Brasil, a mudança de Rua Montenegro para Vinicius de Moraes e o fim do Cinema Miramar. Um Rio que também vai se perdendo está em "Carioca da gema", de João Antônio, dos anos 70, que traz uma visão hoje idealizada dos morros: "Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. É onde mais se canta no Rio."

Beatriz optou também por uma escolha arriscada: incluir na seleção um punhado de autores novos.

- Quis pôr um olhar sobre a cidade que não fosse nostálgico. O livro traz uma fruição inédita, um olhar mais fresco que é difícil de achar em escritores mais consagrados - explica Beatriz, professora da Uni-Rio, pesquisadora da UFRJ e organizadora do livro "Cronistas do Rio". - E os trechos selecionados fazem com que "Rio literário" funcione como aperitivo para o leitor conhecer seus autores.

Diário da cidade ilustrado por polaróides - Fotógrafo evitou caminho documental e fez 71 imagens que complementam os 33 textos de 29 escritores

Coerente com o espírito do livro "Rio literário", o fotógrafo Bruno Veiga não seguiu o caminho documental e evitou fazer uma crônica fotográfica. Durante dois meses e meio, ele percorreu a cidade e fez as 71 fotos que acompanham os textos.

- Tentei achar as referências citadas pelos autores, mas sem ser literal e explícito. Em vez de reafirmar o texto, tentava às vezes dar uma informação complementar - diz.

Para ilustrar o trecho de "Cidade de Deus", de Paulo Lins, ele fotografou um Cristo negro no cemitério São João Batista. No caso de "O crime da Gávea", de Marcílio Moraes, o narrador vê a cara de uma baleia branca numa rocha. Veiga lembrou-se de uma firma de manutenção de piscinas que tem como marca uma baleia, e, pronto, achou sua foto. As imagens foram feitas com uma polaróide, máquina que casava bem com o projeto de Beatriz Resende.

- Ela remete ao passado e está no imaginário de cada um. O livro é como se fosse um grande diário da cidade, e as polaróides são as imagens que ilustram essas narrativas pessoais - diz ele, que critica a imposição das digitais nos dias de hoje. - Virou obrigação usar digital. Não é assim, depende do caso.

Também era mais seguro circular pelos buracos da cidade com uma câmera antiga.

- Visitei desde a Favela Rio das Pedras até o Mirante das Canoas, às 19h. Andei muito pela cidade e não fui assaltado.

Há momentos no livro em que o Rio surge escancarado, como em "Na boca do túnel", de Sérgio Sant'Anna, que fala de São Cristóvão, "com sua tonalidade cinza, suas pequenas indústrias, oficinas mecânicas, lojas de autopeças, a Feira dos Nordestinos, o Pavilhão de Exposições".

Em outros instantes, o cenário torna-se mais vago, como no trecho de "A escola da noite", de Rubens Figueiredo, passado numa região barra-pesada da cidade: "Não se tratava propriamente de uma favela, pois os alunos e professores davam esse nome a algo que começava do outro lado de um canal, que corria em uma vala a uns duzentos metros da escola".

A feitura do livro propiciou descobertas para Beatriz.

- Descobri que alguns autores são bastante obcecados pelo Rio e a gente não via isso.

É o caso de Clarice Lispector, que aparece com dois textos. Outra surpresa foi Copacabana. Já se esperava a presença maciça do bairro na literatura, mas Beatriz espantou-se ao perceber que essa assiduidade se estende à produção recente.

- Achava que ia parar nos anos 70, mas não. Copacabana é meio como uma Manhattan brasileira.

A certa altura, ela teve que parar de selecionar fragmentos que falavam do bairro. Foi o que aconteceu com o romance "De cada amor tu herdarás só o cinismo", de Arthur Dapieve. Em vez de retirar um trecho passado em Copacabana, Beatriz escolheu um pedaço do livro ambientado na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, durante a passagem do Bloco das Carmelitas.

Há várias leituras de Copacabana em "Rio literário".

- Contrabalanço, por exemplo, a Copacabana de Sônia Coutinho, que é o espaço da solidão, com a de João Paulo Cuenca, muito povoada.

Eis aí a cidade ficcional traçada pela escrita dos autores: contraditória, multifacetada, celebrada e rejeitada, sedutora e movediça, mas tendo em comum a capacidade de produzir as reações mais apaixonadas.
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Reportagem sobre filme com Betinho, Henfil e Chico Mário


A volta de Henfil e seus irmãos - Documentário refaz trajetórias do cartunista, de Betinho e Chico Mário

A vida de Henfil, Betinho e Chico Mário bem poderia ser uma ópera, como nota o compositor Fernando Brant. Mas acabou no cinema. Hoje, dia em que Betinho completaria 70 anos, a diretora Ângela Patrícia Reiniger exibe em pré-estréia para convidados, no Odeon, um documentário que conta, em 1h45m, a saga de três irmãos que nascem hemofílicos, morrem vítimas do vírus da Aids, mas, nesse intervalo, constroem uma vida intensa e admirável. É a primeira exibição pública do filme, que levou cinco anos para ficar pronto. No mesmo dia, será lançado o livro "Um abraço, Betinho", de Dulce Pandolfi e Luciana Heymann.

No filme "3 irmãos de sangue", a fisioterapeuta de Henfil diz: com a hemofilia você transforma sua vida ou num lamento ou numa apoteose. Os três fizeram a segunda opção. A doença incurável cria uma urgência que, somada ao talento individual e à indignação com a injustiça herdada da mãe, dona Maria, resulta em três figuras marcantes.

No filme, que só estréia em circuito ano que vem, Ângela entrelaça a vida dos três à do país, recuperando episódios como a Anistia e o "Diretas Já".

- O Brasil é quase como um quarto personagem - diz ela, que faz sua estréia no cinema.

As trajetórias de Betinho, com sua lucidez, de Henfil, com seu traço transgressor, e de Chico Mário, com sua luta pioneira na música independente, são costuradas através de imagens de arquivo e de depoimentos de amigos e parentes.

- Durante a montagem, eu me pegava falando: "Não posso me emocionar mais com isso, já vi cinco vezes." E ainda assim me emocionava - diz Ângela.

A grandiosidade e o drama da vida do cartunista, do sociólogo e do músico são contados em três blocos. No primeiro, "Origem", vê-se que, dos 16 filhos de dona Maria e seu Henrique, somente oito sobreviveram - cinco mulheres e três homens: Henfil, Betinho e Chico.

O segundo bloco - "Sangue verde-e-amarelo" - mostra a profunda identificação da família com o Brasil, a ponto de, no aniversário de 80 anos de dona Maria, o "Parabéns pra você" ter sido substituído pelo Hino Nacional.

O último bloco - "Aids" - lembra como a doença, contraída em transfusões de sangue, abreviou a vida dos três: Chico Mário morreu com 39 anos, Henfil, com 43, e Betinho, com 61.

A história do filme remonta a 2000, quando Marcos Souza, filho de Chico, teve a idéia e procurou a produtora No Ar, que produzia o "Mãe e cia." (GNT) e produz o "Programa especial" (TVE). As filmagens só começaram no início deste ano.

O filme mostra a militância irreverente de Henfil, relembra seu talento para criar tipos - da Graúna ao Baixim - e recupera episódios como a criação da frase "Diretas Já", durante entrevista com o senador Teotônio Vilela no "Pasquim".

Na tela, vê-se a transformação de Betinho, o "irmão de Henfil" na canção "O bêbado e a equilibrista", em referência na vida pública brasileira. Ângela conta que, um dia, o faxineiro entrou na sala de edição, viu a imagem do sociólogo e disse, cheio de intimidade: "Meu amigo!". A fragilidade física contrastava com a força de vontade do criador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e da Ação da Cidadania contra a Miséria, a Fome e pela Vida.

O filme exibe o talento ainda pouco conhecido de Chico Mário. Num belo trecho, Ângela alterna imagens antigas de Chico cantando num show a música "Andaime" com cenas atuais de Ivan Lins ouvindo a canção. De olhos fechados, ele não resiste e cai no choro. Em outro momento, após a morte do irmão, Betinho conta: "Chico me disse que queria viver até a última gota." Como de fato viveram os três filhos de dona Maria.
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Reportagem com Cauby Peixoto e Diogo Vilela

Nos bastidores, com Cauby - Diogo Vilela prepara-se para interpretar o cantor em musical escrito e dirigido por Flávio Marinho

Tarde dessas, o telefone tocou na casa do ator Diogo Vilela. Do outro lado da linha, uma voz inconfundível começou a cantar a música "The man that got away", do filme "Nasce uma estrela".

- Fiquei superemocionado - diz Vilela. - Era Cauby Peixoto cantando Judy Garland para mim. Ele viu um show dela ao vivo, no Palace. Todo mundo chorou, inclusive ele.

Os dois têm descoberto afinidades, como a admiração pela atriz e cantora americana. O convívio, que nunca foi próximo - "Acho que só tínhamos nos encontrado uma vez", diz Vilela - tornou-se mais intenso nos últimos tempos, desde que o ator resolveu interpretar o cantor num musical escrito e dirigido por Flávio Marinho.

Vilela perdeu a conta dos shows de Cauby que tem visto. No sábado retrasado, lá estava ele de novo, dessa vez no Teatro Rival, ouvindo canções como "Bastidores", "Conceição", "My way", "Madalena", "Vou te contar" e "Garota de Ipanema" na voz de um dos maiores intérpretes da História do país.

Antes do show, os dois trocaram amabilidades.

- Cauby vai ser o primeiro a ver o espetáculo. Tenho a intuição de que ele vai ser conivente com muita coisa que achei. Só espero que ele não diga: "Não gostei de nada!" - brinca o ator, que vai usar um salto para crescer do 1,75m para o 1,86m do cantor.

Cauby observa Vilela falar, pousa a mão em seu ombro e diz, em tom de aprovação:

- Ele é sério. Alguns comediantes já tentaram me imitar. Eles exageram um pouco, fazem muitos trejeitos. Não sou isso. Canto com nuances, o grande valor que tenho é a voz.

O show está para começar, o público lota o teatro, e, nos bastidores, os dois trocam impressões sobre o musical. Cauby canta uma música, sob o olhar atento de Vilela:

- Ai, que lindo! Ele coloca a alma na voz - diz o ator. - O espetáculo é uma homenagem a Cauby. Não é para mostrar que eu canto. Quero destacar o que ele representa no nosso imaginário.

- Isso me envaidece muito - devolve o cantor.

Montagem vai mostrar época de Cauby como Ron Coby

No musical, o Cauby vivido por Vilela é entrevistado por um jovem jornalista, mas afeito a Pitty que aos ídolos da Era do Rádio. À medida que o papo se desenrola, a vida de Cauby vai sendo contada - e cantada - em cena. O passado entra no presente, e surgem nomes como Maysa, Ângela Maria, Emilinha, Paulo Gracindo e Dalva de Oliveira. A montagem vai mostrar também a época em que ele excursionou pelos Estados Unidos, quando usava um nome americanizado e foi chamado de "Elvis Presley brasileiro".

- Apareço de Ron Coby na peça - anuncia Vilela.

- É? - surpreende-se Cauby, antes de abrir um largo sorriso no rosto e apertar a mão do ator.

Vilela acredita que Cauby poderia ter reconhecimento internacional, se não fosse o português.

- Cauby me disse, a respeito da ida aos EUA: "Eu não deveria ter voltado." Nossa linguagem nos limita profundamente. É a frustração dos trópicos. E o musical tem uma melancolia, que traduz muito a alma de um artista.

O espetáculo vai se chamar "Cauby - O musical".

- Senão vai aparecer gente perguntando: "Cadê o Cauby? Quem é esse cara aí cantando?". Vão jogar tomate em mim - diverte-se Vilela.

Mas ele tem consciência do desafio que é levar aos palcos alguém com a voz de Cauby.

- Quando falei do projeto, disseram: "Você é louco." Depois que decidi fazer, fiquei sem dormir, com azia, achando que não iria dar certo. Mas não pretendo imitá-lo, não é um musical realista.

De qualquer forma, o ator tem tido aulas de canto três vezes por semana com o professor Victor Prochet.

- Canto todo o repertório de Cauby nas aulas. E, antes de optar por esse sonho, fui analisado pelo Victor, por sua mulher, Lauricy, e pela (musicista) Liliane Secco. Cantei para eles e fui aprovado. Tenho afinação e extensão vocal. E minha voz tem semelhança de tom com a dele.

Vilela tem visto Cauby no palco "para senti-lo, não para estudá-lo":

- É uma osmose da minha parte.

Flávio Marinho usou como base para o texto o livro "O astro da canção", de Rodrigo Faour. Ele e Vilela optaram por não explorar a vida pessoal do cantor.

- Nós nos expomos mais cantando ou interpretando do que falando coisas pessoais - diz Vilela. - E você não imagina Cauby fora do camarim, na rua, esperando ônibus, fazendo coisas cotidianas.

O que tiver de íntimo tem a ver com a figura pública de Cauby, como uma frase dita pelo cantor a Vilela: "A vida toda fiz as minhas plásticas para o meu público, mas hoje eu vejo que o que as fãs queriam era a minha voz."

O projeto já tem autor, diretor, elenco e equipe técnica - o cenário, por exemplo, será de Daniela Thomas. Vilela tem corrido agora atrás de patrocínio.

- Para o musical existir, são precisos dez atores e cinco músicos. Não posso fazer um espetáculo sobre o glamour em frangalhos - diz ele, que foi procurado por uma produtora interessada em fazer um filme sobre o cantor.

Cauby aprova e anuncia outra novidade:

- Depois da peça, vamos fazer um show juntos.

Ator diz que Cauby tem teatralidade inerente - Idéia de montar espetáculo sobre a vida do cantor veio depois que Diogo Vilela viu entrevista na televisão

A idéia de levar a vida de Cauby Peixoto aos palcos surgiu durante a montagem da peça "Tio Vânia".

- As pessoas iam ver, depois tocavam no meu ombro e falavam: "Você está ótimo. Mas por que você só faz drama se você é comediante?" - diz Vilela.

Nessa época, o ator viu uma entrevista do cantor na TV.

- Identifiquei-me com a sinceridade e a delicadeza dele. E ele vive para cantar, assim como também sou casado com a interpretação - diz Vilela, ator há 35 de seus 47 anos. - Falei: "Tenho que fazer a vida dele." Ele tem uma teatralidade inerente. Então, temos que botar essa figura no teatro. Fui procurá-lo e ele me recebeu bem.

Cauby diz que é a primeira vez que o procuram para fazer um musical sobre sua vida. E está empolgado com a idéia.

- Diogo vai fazer a alma de um artista brasileiro.

Sábado retrasado, durante o show no Teatro Rival, o cantor dirigiu-se do palco a Vilela, que estava na platéia: "Diogo, faça um Cauby do outro mundo!".

Pelos planos de Vilela, o musical será encenado no meio de 2006. Atualmente, ele está no cinema no filme "O coronel e o lobisomem", de Maurício Farias, que já foi visto por quase 450 mil espectadores, e vai gravar um especial de fim de ano para a TV Globo: "Toma lá, dá cá", com Miguel Falabella, Débora Bloch e Adriana Esteves.

O ator conta que costuma ser abordado por fãs desejosos de saber seus planos. Quando diz que vai fazer um musical sobre Cauby, ouve: "Onde? Quando? Já está vendendo ingresso?".

- As pessoas ficam muito açodadas - diz, pouco antes de ser abordado no show por uma senhora perguntando justamente o que vai fazer em seguida.

Vilela fala que vai montar um musical sobre Cauby em 2006, e a mulher lamenta:

- Ah, mas não vai ser este ano, não? Puxa...
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Reportagem com o diretor Ruy Guerra

Língua e olhar afiados - Cineasta de prestígio, Ruy Guerra atira farpas nos festivais e colegas de profissão

Bloquinho na mão, a mocinha de seus 13 anos se aproximou do cineasta Ruy Guerra e perguntou:

- Você é famoso?

- Não, não sou.

Diante da negativa, ela se afastou e foi buscar autógrafo em outra freguesia. Aconteceu no Festival de Gramado, uns seis anos atrás. Ao contrário do que disse à garota, Guerra é famoso, tem seu nome ligado à história do cinema brasileiro desde "Os cafajestes", de 1962, e "Os fuzis", de 1964, mas não suporta aquele burburinho típico dos festivais de cinema.

- Gramado virou um evento social. Detesto Cannes, detesto aquela feira. Todos os festivais estão caminhando para isso - diz. - Eles deveriam ser uma espécie de prospecção de experiências cinematográficas, mas viraram vitrines comerciais. E o público não é de cinéfilos, é de turismo.

Aos 74 anos, recém-completados, Guerra conserva a língua afiada e a vitalidade. Seu novo filme, "O veneno da madrugada", baseado no livro de Gabriel García Márquez, estréia dia 25 de novembro - antes, participa da competição dos festivais de San Sebastian, Biarritz e Brasília.

Guerra já escreveu 40 páginas e seis canções do musical que está fazendo sobre Dom Quixote, a convite do diretor Ernesto Piccolo. As letras serão musicadas por Lenine.

- É um cordel, tem umas travessuras no meio - antecipa.

Além disso, está retomando um projeto antigo, a adaptação cinematográfica do livro "Quase memória", de Carlos Heitor Cony, que deverá ter José Wilker no papel principal. Também vai buscar patrocínio para "O tempo à faca", filme com idéia original sua e roteiro da ex-mulher Luciana Mazzotti. É a história de uma vingança, passada no Nordeste.

- Tenho vontade de rodar em preto-e-branco. Mas se meus filmes já são para gueto, daqui a pouco vou fazer para dez espectadores - faz a auto-ironia Guerra, que ainda dá aulas de linguagem cinematográfica na Gama Filho e trabalhou como ator em "Casa de areia", de Andrucha Waddington.

O ano que vem também promete ser movimentado. Guerra quer escrever o livro "A ciência e a malandragem do plano-seqüência" - que está no primeiro capítulo.

"O veneno da madrugada", uma co-produção Brasil, Argentina e Portugal, é a quarta adaptação que ele faz de um livro de García Márquez - depois de "Erêndira", "A fábula da Bela Palomera" e "Me alugo para sonhar". É a história de um tenente incorruptível que é designado prefeito de uma pequena cidade onde todo mundo é corrupto, num país que vive uma guerrilha. Gabo, como o escritor é conhecido, nem sequer viu o roteiro.

- Ele só vai ver o filme agora, já pronto. Gabo sabe que cinema é uma coisa e obra literária, outra - diz o diretor, com seu inseparável charuto, em sua casa no alto do Jardim Botânico, onde sopra uma brisa nos fins de tarde. - Não digo que é o último filme que fazemos juntos, porque achei que o terceiro seria. E este livro dele, "Memórias de minhas putas tristes", é lindo.

A exemplo de "Estorvo", há um anão, personagem vivido por Fabiano Costa.

- Ele é fantástico. Fiz teste com uns 40 atores e todos eles interpretavam o personagem de anão. Fabiano se comporta como se tivesse 1,80m. Adoro anões. Tenho ternura por eles. Não gosto de trabalhar com crianças no cinema. Abaixo de 1,20m, só anão - ri.

A preferência não tem a ver com a baixa estatura que ele tinha quando adolescente, época em que media apenas 1,31m. Seu pai, preocupado, organizou uma junta médica que resolveu aplicar injeções de crescimento no menino.

- Felizmente um primo médico impediu o tratamento. Poderia dar gigantismo e debilidade mental - diz ele, que acabou crescendo naturalmente até 1,70m. - Quando eu escrever minhas memórias, o título será: "Eu já fui anão."

A amizade com Gabo vem de 1972, quando se conheceram em Barcelona. Viam-se todo dia e o escritor chegou a escrever uma crônica onde contava que ele botava uma garrafa de uísque de um lado da sala, outra de outro, e os dois só saíam depois que dessem conta das duas.

- Tem um pouco de mito - diverte-se ele, que comenta a dobradinha: - Uma vez ele escreveu que a pessoa com quem mais gosta de trabalhar sou eu porque não o considero como García Márquez quando estou trabalhando. Eu o questiono, não mitifico. As pessoas trabalham muito respeitosamente com ele.

Com Mario Vargas Llosa as relações são mais conflituosas. Os dois trabalharam juntos diariamente, durante três meses, no roteiro de um filme sobre Canudos, que acabou não saindo. Anos depois, o peruano lançou "A guerra do fim do mundo". Guerra diz que o escritor roubou a idéia, os personagens, as histórias e as situações e transformou na primeira parte de seu livro. No último Festival de San Sebastian, os dois estiveram presentes.

- Deixei de ir no Guggenheim de Bilbao porque teria que ir na van com ele.

Certa vez, o ator Gérard Depardieu criticou Guerra por não fazer filmes mais comprometidos com a realidade brasileira. O diretor explica que o problema é financeiro.

- No teatro, é a mesma coisa, com raras exceções o pessoal só faz comédia. É muito difícil encontrar financiamento para filmes que saiam dessa corrente.

Ele não gostou da declaração de Depardieu.

- Irritou-me, porque ele é um excelente ator, mas faz muita porcaria. Não sinto nenhuma autoridade para ele dizer isso. Se transmitisse essa postura crítica no cinema, tudo bem.

Guerra não gosta do que chama de cinema asséptico - prefere suor e sujeira. Em "O veneno da madrugada", seu 15º filme, que tem no elenco Leonardo Medeiros, Juliana Carneiro da Cunha, Fábio Sabag e Tonico Pereira, chove do princípio ao fim.

- É um filme muito escuro, que tem muita lama.

Não por casualidade, um dos filmes de que ele mais gostou nos últimos tempos foi o documentário "Estamira", de Marcos Prado, sobre uma mulher que tira seu sustento do lixão.

- É um documentário muito bonito. Ele embeleza um pouco, mas o personagem é fantástico e se sobrepuja a isso.

O cineasta não gosta quando o embelezamento se confronta com a realidade. Daí sua resistência a "Cidade de Deus" e "Central do Brasil".

- A câmera tem sempre uma ideologia. No caso de "Cidade de Deus", você tem imagens marcadas por uma estética que vai contra a temática do filme - diz. - A temática é marginal e a estética tem a marca consumista do videoclipe, que é um material de venda. Há uma busca por uma estética que não bate com a temática do filme. Mas o garoto (Fernando Meirelles) tem talento, não é isso que está em questão.

No caso de "Central do Brasil", ele acha um produto para exportação e vê contradição parecida.

- Quando o filme entra Brasil adentro, teria que ser uma estética suja. A câmera tem que colar com a realidade.

Guerra não viu o novo filme de Walter Salles, "Água negra", mas não entende as razões que levaram o diretor a trabalhar em Hollywood.

- Tem um certo deslumbramento filmar nos Estados Unidos - diz o diretor, que aponta uma vantagem em trabalhar no Brasil: - Não há liberdade para fazer este filme que eu fiz nos Estados Unidos. Aqui, pode-se fazer coisas contra a corrente e lá você é obrigado a se moldar.

Exatamente o que Guerra sempre evitou.
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Reportagem sobre filmes baseados na ditadura militar

Tirando o capuz - Os anos de chumbo da ditadura militar ressurgem em 14 filmes

Os guerrilheiros estão saindo da clandestinidade. Depois de chegarem ao poder, os ex-militantes de esquerda começam a ocupar uma nova trincheira: o cinema. Com exceção de uns poucos filmes, como "Pra frente Brasil", "O bom burguês", "Ação entre amigos", "Lamarca" e "O que é isso, companheiro?", os 21 anos de regime militar passaram quase em branco nas telas. Agora, 14 cineastas voltam suas lentes para o tema. Dois filmes já foram lançados: "Quase dois irmãos" e "Cabra-cega". Outros quatro estão prontos. Seis estão na fase de filmagem ou sendo montados. E dois esperam patrocínio.

- Este período é um manancial fantástico para o cinema - diz Silvio Da-Rin, que está rodando o documentário "Hércules 2456", nome do avião que levou os 15 presos políticos trocados pelo embaixador americano em 1969.

E é mesmo, a julgar pela variedade de abordagens, que mostram dos porões da tortura à Guerrilha do Araguaia.

- O que dá vida a essa safra que começa a sair agora é que se está conseguindo falar sem caricatura ideológica - diz Renato Tapajós, que vai filmar "Corte seco". - Após o fim da ditadura, houve um grande trabalho de desinformação que transformou os militantes em estudantes festivos e abobalhados ou em terroristas internacionais que fizeram curso na China ou em Cuba. Esta visão simplista contaminou o que se produziu a respeito, e o clímax disso é "O que é isso, companheiro?" (filme de Bruno Barreto).

Os anos de chumbo chegam às telas em parte a reboque da eleição de Lula.

- A eleição de um governo popular encorajou muita gente a buscar esses temas - diz Ronaldo Duque, diretor de "Araguaya - A conspiração do silêncio". - Este governo, que hoje atravessa um período triste e obscuro, abriu corações e mentes para esse assunto.

E os cofres também.

- A chegada do PT ao poder deu condições financeiras para isso - diz Roberto Mader, diretor de "Operação Condor", que teve patrocínio da Petrobras e da Fundação Ford.

Mas há outras explicações.

- Hoje, não há mais o risco de ser considerado revanchismo falar no tema - conta João Batista de Andrade, diretor de "Vlado, 30 anos depois".

O tempo também cicatrizou um pouco as feridas provocadas pela repressão.

- As pessoas estão mais à vontade para falar no assunto, de todos os lados. O período está longe o suficiente para se ter uma visão mais reflexiva, mas perto o bastante para ter como lição importantíssima de ser aprendida - diz Mader. - E a distância permitiu que os arquivos da época começassem a ser abertos.

O filme mostra a colaboração entre os regimes ditatoriais do Cone Sul, com enfoque nas pessoas envolvidas. Mader conseguiu cenas inéditas de repressão e entrevistou até o general Contreras, ex-chefe da polícia secreta de Pinochet.

- O distanciamento histórico permite que hoje se fale com muito mais liberdade e clareza - concorda Helvécio Ratton, diretor de "Batismo de sangue".

Se a ditadura militar, que começou em 1964, tornou-se uma passagem desbotada na memória das novas gerações, como canta Chico, será que haverá público para os filmes?

- Já passamos em 14 cidades e na platéia tem desde jovens de 16 anos a senhores de 70 - diz Duque. - Em Florianópolis, havia mil pessoas no cinema e 500 do lado de fora.

- Como tem interesse! - completa o vereador Leopoldo Paulino, autor do livro que inspira "Tempo de resistência", de André Ristum. - Temos viajado com o filme e tem escola onde fico duas horas respondendo a perguntas.

Os diretores descartam o risco de saturação e lembram o exemplo dos EUA.

- Os americanos fizeram 600 filmes sobre a Guerra do Vietnã e transformaram sua História, a conquista do Oeste, num gênero cinematográfico, o western - compara Sérgio Rezende, que vai filmar "Angel".

- Quanto mais revisitado for esse período obscuro da nossa História melhor - diz Marcelo Santiago, de "O balé da utopia".

Militantes entram em cena, sem estereótipos - Filmes de ficção e documentários de 14 cineastas apresentam diferentes abordagens da luta contra o regime militar

Nos últimos anos, o cinema abriu espaço para o movimento - como é chamado o tráfico de drogas. Filmes como "Cidade de Deus", "Carandiru" e "O invasor" trouxeram a periferia para as telas. Agora, outro movimento - a esquerda que lutou contra a ditadura - dá as caras.

- Mas sem o estereótipo dos militantes como inocentes úteis ou aventureiros porra-loucas - frisa Silvio Da-Rin.

Em "Hércules 2456", ele vai entrevistar os presos políticos - entre eles José Dirceu - trocados pelo embaixador americano. Dos 15, nove estão vivos.

- Eles vão falar sobre suas motivações, repensar a luta armada, lembrar o vôo - diz ele, que ficou preso por oito meses durante a ditadura.

Patrícia Morán preferiu outro recorte. Em "Clandestinos", ela vai ouvir os que largaram a vida pública. A idéia surgiu quando, na faculdade de história, percebeu um descompasso entre os relatos heróicos que ouvia da guerrilha e o mal-estar que percebia nos ex-militantes.

- Vi que há uma tristeza muito grande, uma falta de rumo.

O filme discute temas como liberdade, direito de ir e vir, e identidade.

- Há uma perda de identidade, porque a pessoa passa a ter diversos nomes, roupas, endereços, biografias.

Os ex-militantes também são protagonistas do documentário "Tempo de resistência", de André Ristum.

- Quisemos dar uma idéia geral do período - diz Ristum, de 33 anos, filho de ex-exilados.

Ele adaptou o livro do vereador Leopoldo Paulino, de Ribeirão Preto (SP). Dos 28 entrevistados, só um era da direita.

- Os vencidos é que contam a história. Os vencedores têm vergonha - diz Paulino.

Os vencidos também estão retratados, mas de forma ficcional, em "O balé da utopia" e "Vôo cego rumo sul". Baseado no livro de Álvaro Caldas, "O balé da utopia" marca a estréia de Marcelo Santiago na direção. Mel Lisboa vive uma aluna que, influenciada por um professor, acompanha-o na luta armada.

- Ela vem com idéias românticas e idealizadas da guerrilha, e passa a questionar o movimento quando começa a cuidar de um guerrilheiro ferido - diz Santiago.

"Vôo cego rumo sul", baseado no livro de Sinval Medina, também desvia o foco dos militantes profissionais. Mostra quatro jovens que, nos dias 1º e 2 de abril de 1964, vão para o Sul quando ouvem falar que Brizola vai organizar a resistência.

- Quando li, identifiquei-me com aqueles simpatizantes desgarrados querendo encontrar algo para ajudar na resistência - diz o diretor, Hermano Penna. - O filme tem um tom de crítica à divisão das esquerdas.

Na safra atual, há espaço também para personagens que não pegaram em armas, como os quatro jovens músicos de "Os desafinados", de Walter Lima Jr.

- O filme fala de um sonho de transformar o mundo que é tolhido por um golpe militar. Fala de um ânimo, de um entusiasmo que é sufocado - antecipa.

"Angel" mostra a luta da estilista Zuzu Angel para denunciar a morte do filho Stuart e encontrar seu corpo.

- O assunto do filme é o Brasil dos anos 60 e 70, é a vida de Zuzu - diz Sérgio Rezende, que já tinha feito "Lamarca". - Mas o tema ultrapassa esse período e tem apelo universal. Tem uma coisa de tragédia grega, de Antígona. E tem também a questão da tortura, que é contemporânea, como se pode ver com os americanos no Iraque.

A tortura vai estar presente ainda no documentário "Vlado", de João Batista de Andrade, que mostra a história do jornalista Vladimir Herzog contada por seus amigos, como o próprio diretor. Vlado, como era conhecido, foi torturado até a morte, mas a versão oficial falava em suicídio. Outra vítima de tortura foi Frei Tito, que acabou se enforcando na França e está em "Batismo de sangue", de Helvécio Ratton.

- A tortura significa se apossar do corpo. No caso dele se apossaram da alma também - diz Ratton, de 54 anos, outro ex-militante. - Frei Tito antecipou uma certa descrença que a nação vive com o fim do sonho e a morte das utopias. Mas não me interessa simplesmente narrar acontecimentos de 30 anos atrás, e sim falar de algo que permita compreender mais profundamente o sentido da vida e da condição humana. Não é um filme para se vestir a camisa de Guevara e assistir.

"Corte seco", de Renato Tapajós, passa-se quase todo numa cela e numa sala de tortura.

- A primeira versão do roteiro acabou ficando muito pessoal - diz ele, de 61 anos, que foi preso e torturado. - Fui depurando para tentar deixar de falar somente de algo que aconteceu em agosto de 69 com um grupo de classe média brasileira para tratar de uma questão mais universal, que é a capacidade do ser humano de infligir dor e humilhação a outro.

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Segunda-feira, Agosto 01, 2005

Reportagem para os 80 anos do GLOBO

Histórias entrelaçadas - A saga ao longo de 80 anos de duas famílias que estavam na primeira edição do GLOBO

Duas famílias tinham um motivo a mais para celebrar a primeira edição do GLOBO, que foi para as ruas há exatamente 80 anos. O jornal trazia em suas páginas boas novas para Waldemar e Maria da Glória Pessoa de Barros, que festejavam o nascimento de sua filha Dilcéia, e para Eugenio Cotia, que comemorava a solução do caso do assalto à sua joalheria.

De 29 de julho de 1925, data da fundação do GLOBO, até hoje, a história das duas famílias se confunde com a História do país. A vida nacional, refletida nas páginas do jornal, foi ajudando a moldar a trajetória pessoal dos Pessoa de Barros e dos Cotia.

Eugenio viveu 72 anos e Dilcéia, 69. Suas histórias e a de seus descendentes acompanham as transformações por que passaram o país. O GLOBO foi atrás de seus parentes - ele morreu em 67, e ela, em 95 - para contar um pouco da saga das duas famílias - e, por extensão, do jornal e do país - nos últimos 80 anos.

Dilcéia Pessoa de Barros - Avançada para seu tempo, a contadora Dilcéia teve que abandonar a carreira para cuidar dos filhos, mas deixou como herança o entusiasmo pelas letras

Dilcéia Pessoa de Barros estava prestes a completar seu primeiro mês de vida quando a edição número 1 do GLOBO chegou às bancas. Com a linguagem cheia de floreios da época, o jornal noticiava, em sua página 4: "Acha-se enriquecido o lar do Sr. Waldemar Pessoa de Barros, commerciante em Quatis de Barra Mansa, e sua Exma esposa, D. Maria da Glória Barros, com o nascimento de sua filhinha Dulce."

A família não fazia parte do high society, mas foi parar na coluna O GLOBO na Sociedade graças à madrinha da menina. Rosita era filha de Braz Viana, que trabalhava nas oficinas do jornal, e pediu ao pai que registrasse o nascimento de sua afilhada. Braz acolheu o desejo da filha, mas, em vez de Dilcéia, saiu publicado o nome Dulce. Um erro gráfico? Maria Cristina, filha de Dilcéia, tem outra explicação, mais inusitada:

- Acho que foi de propósito. A madrinha de minha mãe tinha problemas com nomes. Ela queria que eu fosse Mônica e passou a vida inteira me chamando de Mariazinha, em vez de Cristina. Provavelmente, ela queria que a afilhada se chamasse Dulce.

A estratégia não deu certo e a menina foi batizada mesmo como Dilcéia, filha caçula de Waldemar, farmacêutico e dono de hotel, e Maria da Glória, dona de casa, moradores de Quatis, no interior do estado. Aos 23 anos, Dilcéia Pessoa de Barros era avançada para seu tempo. Numa época em que à mulher era reservado o papel de dona de casa ou, no máximo, o de professora, ela tinha saído de Quatis para estudar no Rio, formara-se na faculdade e trabalhava como contadora.

Antonio Júlio Silvestre Filho, ao contrário, era o típico representante do patriarcado português. Filho de imigrantes, trabalhava como vendedor no escritório de representação comercial que o pai tinha no Centro. Na volta do trabalho até sua casa, no Catumbi, costumava esbarrar com aquela mulher de cabelos pretos, mignon e elegante, que passava para pegar o bonde até Santa Teresa. Admirava-a de longe, sem arriscar qualquer abordagem. Até que um dia, decidido, foi atrás da moça, subiu na condução e puxou papo com aquela desconhecida que tanto o fascinava.

Cerca de um ano depois, os dois se casavam e ela passava a assinar Dilcéia Barros Silvestre. A primeira coisa que Júlio fez foi tirar Dilcéia do trabalho.

- Nossa família era muito unida e meu pai achava que a melhor pessoa para cuidar dos filhos dele seria a mãe. Isso na época era um grande valor - diz Cristina, irmã de Marco Antonio, Maria de Fátima e José Carlos, já falecido.

Largar a carreira deixou marcas em Dilcéia, bisneta de Cyrillo Eloy Pessoa de Barros, escritor que, em meados do século XIX, publicou os romances "Rodolfo, ou louco assassino", "Adelaide" e "O anel preto".

- Quando estava mais velha, ela dizia sempre para a gente: "Nunca abandone sua profissão" - lembra Fátima.

- Você via que ela tinha uma certa tristeza e uma certa frustração por não ter se aposentado, por não ter renda própria e ficar dependendo do marido - completa Cristina.

As filhas de Dilcéia herdaram da mãe a paixão pelas letras e se tornaram professoras.

- Mamãe, que em 1948 era uma pessoa brilhante, acabou sendo apagada nessa história, mas acho que ela volta de alguma forma através da gente quando nós duas nos formamos e saímos para trabalhar - observa Fátima, que dá aula de língua portuguesa, literatura e redação em duas faculdades paulistas e lançou, com Regina Maria Braga, o livro "Construindo o leitor competente", dedicado a "Júlio e Dilcéia, grandes responsáveis pelo meu amor aos livros".

O amor pela literatura se estendia ao jornal.

- Meus pais liam diariamente O GLOBO. E minha mãe tinha mania de ler algumas colunas, como a de Artur da Távola. E fazia todas as palavras cruzadas e logodesafios - diz Fátima.

Se em casa eles eram um modelo típico da família católica-apostólica-romana-conservadora, politicamente não teria por que ser diferente.

- Íamos a todas as paradas de Sete de Setembro - lembra Fátima. - Quando cresci, não podia nem olhar mais.

O ídolo de Júlio era o ex-governador Carlos Lacerda.

- Era Deus no céu e Lacerda na terra. Papai ia a comício de todo mundo que era apoiado por ele - diz Fátima.

Durante a ditadura militar, o pai tratou de prevenir os filhos sobre os riscos de entrar para a luta armada.

- Ele não queria vê-los em perigo. Dizia claramente para meus irmãos: "Se souber de alguma coisa em que vocês estejam metidos, eu vou lá ajudar a bater" - conta Fátima.

A família apoiou Collor nas eleições de 1989.

- Minha mãe era apaixonadíssima pelo Collor, mesmo depois do impeachment. Se eu dissesse que ia votar no Lula, Deus me livre - diz Fátima.

Ela nunca teve militância político-partidária, mas o ambiente universitário abriu os olhos e diluiu a herança conservadora.

- Dentro desse protótipo de filho da revolução, de quem foi criado sob essa opressão toda, acho até que tentamos ter alguns vôos - diz. - Como professora, participei muito de sindicatos, piquetes, greves e passeatas. Tudo escondido do meu pai. Meu medo de uma televisão me filmar não era nem do SNI, e sim de ele ver que eu estava lá.

Mesmo com uma criação rígida, as duas não seguiram fielmente o modelo dos pais. Hoje com 47 anos, Fátima chegou a se unir uma vez, mas não teve filhos - os avós maternos tiveram nove e seus pais, quatro.

- Acho que minha mãe se preocupou tanto em dizer que tínhamos que cuidar da profissão que fomos fazer isso.

Cristina, de 46 anos, casou-se a primeira vez no civil, separou-se e se uniu há 11 anos com o músico Jorge Eduardo de Almeida, do grupo The Brazilian Bitles. Também não teve filhos, ao contrário dos irmãos, que tiveram dois cada.

- Quando me separei, foi um susto para meu pai e para mim. Mas ele já tinha tido esse impacto, com meu irmão mais velho. Teve um dia em que disse: "Se alguém mais se separar e trouxer coisa aqui para casa, sou eu que vou sair. Porque não agüento mais ver o móvel de um, a geladeira e o filho de outro."

Júlio morreu em 1998, depois de sofrer dois duros golpes: a morte do filho João Carlos, um ano antes, e de Dilcéia. Nascida no dia 9 de julho de 1925, ela era diabética e morreria de infecção generalizada em 15 de junho de 1995, pouco antes de completar 70 anos.

Oito dias depois, Cristina, que é professora do Ensino Fundamental na Escola Mater, em São Conrado, escreveu um poema dedicado a ela, que diz num trecho: "A vida sem você é como um caminho sem luz/É como uma árvore sem folhas/É como uma flor sem perfume (...)/Mas mesmo assim preciso viver/Viver na esperança de um dia encontrá-la na eternidade."

- Embora ela tenha ficado silenciada e silenciosa, não ficou morta. Ficou muito viva, e foi fazendo a cabeça da gente. Essa é a grande admiração que tenho pela minha mãe. No fim das contas, ela produziu pessoas altamente ligadas ao conhecimento - emociona-se Fátima.

Eugenio Cotia - Acostumado a correr riscos, o empresário e comerciante Eugenio enfrentou 'três picos e três vales' em sua vida, e só foi derrotado pela doença

Não era todo dia que a polícia mostrava tanta eficiência e a notícia acabou ocupando boa parte da página 2 da primeira edição do GLOBO. "Conseguiu a polícia descobrir o roubo da joalheria Rio Branco. Foram presos alguns de seus autores e apprehendidas as jóias roubadas", anunciava a manchete. Já à época a solução de um caso como este era pouco freqüente e mereceu o devido destaque. "Raras têm sido as vezes em que as nossas autoridades policiais levam a effeito trabalhos de investigação tão felizes", elogiava o jornal.

Com uma atuação impecável, os investigadores conseguiram prender os ladrões que, sete meses antes, tinham roubado cem contos em jóias. Na reportagem, ilustrada com duas fotos, Eugenio Cotia, proprietário da joalheria e "um dos mais conceituados e estimados negociantes da Avenida (Rio Branco)", dizia se mostrar confiante nas autoridades policiais.

Durante quase toda a sua vida, Eugenio Cotia mostrou confiança. Nem quando teve que se desfazer de suas três joalherias - para pagar dívidas contraídas depois que serviu de avalista a um amigo - ele esmoreceu. Chegou a ter que morar com a família nos fundos da joalheira, mas tratou de recomeçar a vida e, em pouco tempo, já era dono de cinco cinemas no subúrbio.

Os negócios prosperavam. Durante alguns anos, Eugenio, a mulher, Laura, e os filhos Lauro, Maria Eugênia e Mauro levaram uma vida abastada, a ponto de morarem no antigo Hotel Suísso, na Glória. Até que um incêndio em uma sala de São Paulo fez com que os bombeiros passassem a exigir uma séria de medidas de segurança, que tornaram inviável a manutenção dos cinemas na periferia. Eugenio vendeu tudo para Luiz Severiano Ribeiro, mas continuava confiante em seu tino comercial.

- Ele tinha pouca instrução formal, mas era um empreendedor nato, muito ousado. O primeiro negócio nem tinha maturado e ele já ia para o segundo - diz Mário, neto de Eugenio.

A próxima parada foram os postos de gasolina. Teve três.

- Meu pai sempre comentou que meu avô tinha um sentido de marketing muito apurado. Cultivava os clientes, sabia o aniversário deles - conta Mário Cotia.

E teria continuado a escalada naquele Rio dos anos 40 se um derrame cerebral não o tivesse deixado com o lado esquerdo do corpo paralisado, aos 45 anos. A doença abalou a vida de Eugenio. Saía pouquíssimo de casa, adquiriu manias, tornou-se de trato difícil e ficou recluso até sua morte, de coração, em 1967, aos 72 anos.

- Ele teve três picos e três vales em sua vida - faz a metáfora Mário.

Neste terceiro vale, o empobrecimento da família fez com que Eugenio mandasse o filho Mauro fazer um curso preparatório para o exame do Colégio Militar. A escola, além de oferecer boa educação gratuita, era interna, o que permitia economizar em alimentação e transporte. Mauro virou tenente-coronel e foi mandado durante a Segunda Guerra Mundial a Natal, onde os americanos construíram uma base. Era zona de guerra e o céu ficava escuro de tantos aviões de transporte americanos que passavam em direção à África.

Aos 85 anos, Mauro tem poucas lembranças do assalto à joalheria do pai. Diz que os ladrões aproveitaram o fim de semana para arrombar a loja ao lado e entrar por um buraco. O GLOBO, que surgiu na vida da família logo na primeira edição, continua presente em seu cotidiano - ele mantém o hábito de ler as seções de política e economia.

No Exército, Mauro fez curso de engenharia e passou a trabalhar em fábricas de armamentos. Em Itajubá (MG), a mulher Yolanda ficou grávida do primeiro filho, Mário, que nasceu no Rio, em 1953 - a irmã Cláudia nasceu em Minas, dois anos depois. Mauro se reformou como coronel em 1963 e seguiu carreira de engenheiro. Nos anos 70, durante a época efervescente do milagre econômico, ele conseguiu, junto com um antigo colega de armas - general Danilo - formar a Indústria Carboquímica Catarinense (ICC), que aproveitava o rejeito do carvão para fazer ácido sulfúrico, usado na produção de ácido fosfórico, matéria-prima de fertilizante.

- A ICC era uma pontinha do milagre econômico, mais um dos investimentos que acabaram gerando os pólos petroquímicos, as estradas, as siderúrgicas - diz Mário, que, como a irmã, seguiu os passos do pai e virou engenheiro.

Sob uma perspectiva técnica, ele analisa o período:

- Não discutindo o preço que pode ter sido pago, o Brasil deu um salto qualitativo grande, com a criação de um parque industrial. Para a classe média, foi um tempo muito bom, porque passou a ter acesso a bens de consumo, a renda média subiu, os serviços ficaram com preços acessíveis. Quem era mais engajado politicamente enxergou de forma diferente, mas nas famílias tradicionais não havia a menor predisposição de ser contra aquilo.

Politicamente, define Mário, a família Cotia sempre tendeu - mais antes, menos agora - para um viés católico-conservador. Os votos do engenheiro foram para Collor, Fernando Henrique e José Serra.

- Se me arrependo do Collor? Não tinha outra opção para mim. Mas o confisco foi um baque para todo mundo.

Ele estava de férias em Arraial do Cabo, com o dinheiro aplicado no overnight, quando o dono da pousada disse: "Venha assistir comigo ao jornal, porque eu acho que você não vai ter como me pagar." O jeito foi deixar cheques pré-datados.

O Plano Collor fez com que Mário tivesse que deixar a empresa de consultoria e projetos de engenharia onde trabalhava. De lá, foi para a Schindler, onde ficou dez anos. Com a fusão com a Atlas, em 99, saiu e passou quatro anos na Fundação Universitária José Bonifácio. No último dia 8, começou a trabalhar em Furnas, depois de prestar concurso público.

- Profissionalmente, acompanhei os altos e baixos do país. Quando me formei, o céu era o limite, a gente achava que viveria eternamente feliz. Mas veio a década perdida. Agora, vou trabalhar numa estatal. Tarde da vida, mas vou - diz ele, de 52 anos, casado há 19 com a também engenheira Helia.

A nova geração está dividida. Sua filha Beatriz, de 16 anos, quer seguir a tradição familiar e fazer engenharia de produção, mas Pedro, de 17 anos, optou por advocacia. É dele a responsabilidade de conservar o nome da família. Se ele tiver um filho homem, o nome continua, senão esse ramo dos Cotia desaparece. Aliás, volta e meia, conta Mário, alguém troca Cotia por Cota, Cotta, Costa ou Cotias.

- Na escola, todo mundo achava que era apelido. É um sobrenome pouco comum. É um roedor mais raro, não é um Coelho da vida, não - diz Mário, que brinca com a semelhança com o bicho cutia: - O ramo rico da família mora no Campo de Santana.

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Sexta-feira, Julho 08, 2005

Reportagem sobre as três irmãs do filme "A pessoa é para o que nasce"

Visão acurada - Documentário sobre irmãs cegas lança nova luz sobre a cegueira

Uma mulher interrompe a caminhada e pergunta:

- Não são as ceguinhas da novela?

Um rapaz suspende o passeio de bicicleta, outros diminuem o passo, algumas crianças se aproximam e, em pouco tempo, Maroca, Poroca e Indaiá são o alvo da curiosidade geral. Naquela manhã de sol ameno e vento frio na Praia do Arpoador, em pleno feriado de Corpus Christi, as três mulheres de Campina Grande, na Paraíba, cumprem o desejo de Maroca que, no documentário "A pessoa é para o que nasce", explica porque aceitou participar do filme dirigido por Roberto Berliner: "Fazendo isso eu vou ficar conhecida por todo canto."

Pois antes mesmo da estréia do filme, na sexta-feira, as três já se tornaram celebridades. Fizeram uma participação na novela "América", receberam do presidente Lula a medalha de Honra ao Mérito, conheceram Pelé, tiraram fotos ao lado de Deborah Secco - a pedido da atriz - foram aplaudidas por quatro mil pessoas no festival de percussão PercPan, colheram elogios de Fafá de Belém, Naná Vasconcelos e Otto e foram homenageadas em música por Gilberto Gil.

Nada mal para três irmãs analfabetas, cegas de nascença, que passaram a vida pedindo esmola nas ruas e experimentaram todo tipo de provação, do estupro sofrido por Poroca ao assassinato do marido de Maroca.

"A pessoa é para o que nasce" cobre sete anos da vida das três, de 1998 a 2005. Berliner, da produtora TV Zero, ouviu falar pela primeira vez das "ceguinhas cantadoras" em 1997, quando fazia o programa "Som da rua" para a TVE. Foi a Campina Grande e, do encontro, resultou ainda um premiado curta-metragem. Mas ele logo percebeu o potencial dramático da história e fez um longa-metragem que revela toda a grandeza das três pequenas mulheres.

As irmãs falam abertamente dos problemas, remexem as feridas, mas não se deixam abater e extraem humor até dos momentos de dor. Neste desnudamento total, o espectador oscila entre o riso e o nó na garganta. A certa altura, Maroca faz troça ao falar de seus dois casamentos, que terminaram com a morte dos maridos: "O primeiro marido eu passei 11 anos casada com ele. E agora esse outro passei só dois anos. Se eu arrumar outro de novo, vou passar só um mês." Em outra passagem, ela ironiza o diretor: "Ele está pensando que está conversando com criança."

- Meu tempo de neném já terminou - diz hoje Maroca, que se tornou avó há seis meses.

E, de fato, elas são bem mais perspicazes do que se pode supor.

- Elas tiveram uma percepção muito clara do que era o filme. Durante a filmagem, Maroca começou a entender o cinema como espetáculo. Ela percebia pelo barulho se a câmera era de vídeo, que ficava ligada todo o tempo, ou de cinema, que registrava só alguns momentos. Então guardava as coisas importantes para esta última: "Vou falar sobre isso? Então eu quero quando a câmera de cinema estiver ligada."

Indaiá, apelido de Francisca da Conceição Barbosa, e Poroca, nascida Regina Barbosa, costumam usar roupas iguais, mas Maria das Neves Barbosa, mais conhecida como Maroca, faz questão de se vestir diferente das irmãs, como na hora de posar para as fotos na praia:

-- Quando fica tudo igual o povo pensa que a gente é gêmea - diz ela, de 60 anos, um a menos que Poroca e seis a mais que Indaiá, enquanto toma uma água de coco, molha os pés na água e se surpreende com a força das ondas.

Elas começaram a cantar embolada e a tocar ganzá nas ruas quando Indaiá tinha 7 anos. São canções, muitas delas anônimas, algumas improvisadas, outras decoradas, e que agora vão virar disco. Junto com o filme, será lançado um CD duplo, que traz as canções originais e recriações feitas por nomes como Zé Renato, Lenine, Teresa Cristina, Elba Ramalho, Paralamas do Sucesso, Pato Fu, Braulio Tavares e Fausto Fawcett.

O filme escancara o envolvimento afetivo entre diretor e personagens - a tal ponto que o próprio Berliner se torna personagem. Ele relutou muito em aparecer, mas a relação que se estabelece entre uma das três irmãs e ele, na cena mais surpreendente do documentário, fez com que aceitasse a sugestão da equipe do filme.

- Eu acho que apareço muito - reconhece ele, meio de brincadeira, meio a série. - Mas tirei muita coisa minha.

No filme, uma delas explica a cegueira: "O povo fala que nasceu assim porque a mãe é casada com um primo. Mas eu acho que não é, não. Foi porque Deus quis mesmo." Elas chegaram a sustentar com o dinheiro conseguido nas ruas 14 pessoas, o que motiva um irônico comentário: "Lá em casa os que não eram deficientes não trabalhavam em nada. Agora os que eram deficientes viviam trabalhando só para sustentar eles. Trabalha o feio para o bonito comer."

Maroca parou de pedir esmola nas ruas depois de ser operada. As duas irmãs continuam, mas não estão nada contentes.

- Tô vivendo muito chateada - diz Indaiá. - O povo passa reclamando, dizendo que a gente está ganhando dinheiro com o filme, achando que recebemos cachê com a novela. Dizem que a gente enricou e que não precisa pedir mais. Mas até agora ninguém ficou rico, não.

- Quem tem boca diz o que quer - ensina Poroca. - Desde criança que a gente sofre no meio do mundo.

E a cota de sofrimentos inclui humilhações, decepções amorosas, traições em família e apertos financeiros. Maroca sente falta do último marido, assassinado a facadas em 1996.

- Ainda hoje eu sinto essa dor sem fim - conta ela, antes de começar a cantar para o repórter uma das músicas de seu repertório, uma canção triste e pungente que diz: "Ai, ai, ai, meu Deus/ Eu não tenho amor/ Eu não tive sorte/ Sinto em meu peito esta dor."

Mas ela logo se recompõe e avisa:

- Não quero mais falar do passado, não. Quero falar do presente.

Um presente que não cessa de surpreender as três irmãs, como festeja Maroca no filme: "Desde que eu era pequena que eu vivia assim, com uma bacia na mão, pedindo esmola e o ganzá cantando. Pra hoje, depois de já cair na idade, eu ser estrela de cinema."
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Reportagem sobre a briga no cinema brasileiro

Polêmica divisão de bens - É melhor concentrar o dinheiro público em poucos filmes ou pulverizar os recursos?

O mês de junho vai se encerrar com boas novas para quase 30 cineastas brasileiros. No dia 30, a Petrobras anuncia a lista de filmes que serão contemplados com um total de R$19,6 milhões. A empresa, maior patrocinadora do cinema brasileiro, vai dividir a verba em bolos de R$600 mil, R$800 mil e R$1 milhão. Por trás do montante, esconde-se uma polêmica: as estatais devem investir em poucos filmes, mais caros e com chances de conquistar mercado, ou distribuir a verba entre um número maior de produções, mais baratas e experimentais? Em resumo: deve-se concentrar ou pulverizar os recursos?

O produtor Luiz Carlos Barreto foi o primeiro a reclamar. Segundo ele, de 2002 para cá os recursos das estatais foram pulverizados e se voltaram para primeiros filmes, longas experimentais e produções regionais.

- São filmes que devem ser feitos, sim, mas com outras formas de financiamento. Do jeito que está, vamos bater o recorde de produção de filmes inéditos, que não chegam ao mercado. Estão sendo feitos menos filmes competitivos.

De acordo com o produtor, isto justificaria a queda de freqüência do cinema brasileiro, que em 2003 chegou a ocupar 22% do mercado, em 2004 caiu para pouco mais de 14% e, este ano, vai despencar para cerca de 10%. A declaração, publicada semana retrasada no GLOBO, provocou controvérsia.

- A queda se deve ao fato de que este pretenso cinema comercial é de muito baixa qualidade e não encontra público - diz Gustavo Acioli, que está fazendo seu primeiro longa. - "O casamento de Romeu e Julieta" (de Bruno Barreto, filho do produtor) não teve o público esperado (até a semana passada, 968.839 espectadores) e é merecido que não tenha tido. Não tem como empurrar goela abaixo da platéia.

As afirmações de Barretão causaram reações no 15º Cine Ceará, encerrado na sexta-feira. Alguns cineastas do chamado cineminha, por oposição ao cinemão, lançaram um manifesto apoiando a descentralização de verbas, que foi lido pelo diretor do festival, Wolney Oliveira. "Não podemos silenciar diante de afirmações distorcidas, feitas por uma minoria de produtores e realizadores (...), tentando desqualificar as acertadas políticas de apoio que o Ministério da Cultura tem dedicado à diversificação da indústria do cinema neste país", diz um trecho do documento, assinado pela Associação de Produtores de Cinema do Norte e Nordeste, e por várias associações de documentaristas. O texto mostra preocupação com as "articulações de uma minoria que tenta impedir o processo de democratização e afirmação da diversidade cultural e estética" e diz que as produções experimentais, regionais e primeiros filmes deram cara nova e prestígio ao cinema nacional, conquistando centenas de prêmios.

O diretor Paulo Thiago é outro que, a exemplo de Barretão, pede correção de rota.

- Se não permanecermos numa política de produção de filmes competitivos, perdemos taxa de ocupação, perdemos espaço para o cinema estrangeiro. Temos que renovar, experimentar, sim, mas a batalha principal é a ocupação de mercado. Cinema em queda desestimula todo mundo, do jovem cineasta ao veterano - diz ele, diretor de "O vestido", que teve 30.683 espectadores. - Dar R$60 mil para 200 produtores em vez de R$600 mil para 20 não cria democracia nenhuma. O importante é o número de cidadãos que, em vez de ver filmes estrangeiros, passam a ver filmes brasileiros.

Diler Trindade, produtor que levou mais de 14 milhões de espectadores ao cinema nos últimos dez anos, observa o mesmo fenômeno notado por Barretão:

- No MinC, Gil pensou em democratizar os recursos das estatais. A orientação foi apoiar filmes regionais, primeiros filmes, documentários e projetos experimentais. Esta política resultou na redução de filmes competitivos.

Uma questão que fica no ar: como definir um filme competitivo?

- Quem sabe julgar o que é um filme competitivo? Esta é a beleza desta atividade. Não se consegue criar um sucesso no laboratório e nem interessa criá-lo - diz Fernando Meirelles, diretor de "Cidade de Deus", que conseguiu mais de três milhões de espectadores. - Fiz "Domésticas" só com atrizes desconhecidas, sem muita trama e nenhum apelo de público. Lançamos com seis cópias, apenas R$25 mil de verba e o filme conseguiu cem mil espectadores. Se pegarmos o número de espectadores por cópia, foi melhor que "Cidade de Deus". Já "Acquaria" (de Flávia Moraes), com Sandy e Júnior, uma realização impecável e enorme verba de lançamento, não decolou.

Rita Buzzar, produtora de "Olga", passou seis anos correndo atrás de patrocínio.

- Diziam que "Olga" não era competitivo e acabou fazendo mais de 3,2 milhões de espectadores. Mas, quando fiz o filme, tentei mirar o público, escolhendo um diretor (Jayme Monjardim) que tivesse comunicação com a platéia e que cumprisse o cronograma.

Barretão concorda que não há receita, mas diz que dá para saber se é competitivo ao olhar o projeto, a história, o diretor e o elenco.

- Glauber dizia que o que interessa é fazer filme competente, seja ele artístico ou comercial. Ou é "Amarelo manga" ou "Olga". Não pode é ser medíocre. Mas o que se está instalando no Brasil, sob o biombo de palavras sedutoras como democratização e regionalização, é a miserabilização e a mediocrização do cinema brasileiro. Não se pode esconder debaixo do tapete o que está acontecendo. Senão, pelo andar da carruagem, vamos cair no ano que vem para 8%, 6% do mercado.

Cinema brasileiro não se paga, dizem diretores - Cineastas e produtores afirmam que não dá para sobreviver sem dinheiro público num mercado estrangulado

A queda de público dos filmes nacionais levou o ministro Gilberto Gil a pregar, no fim de maio, um "choque de capitalismo" no cinema brasileiro. "A cadeia produtiva deve se remunerar na bilheteria, não com o investimento público. Este, por sua vez, deve ser um estímulo, não a única fonte de recursos", disse o ministro.

Mas diretores e produtores são unânimes em afirmar que o cinema brasileiro não sobrevive sem os recursos públicos.

- Ele não é auto-suficiente. É impossível porque é um mercado pequeno, de alta rotatividade, com ingresso altíssimo e ocupado basicamente por filmes estrangeiros. Por mais competitivo que um filme brasileiro seja, ele não paga seus custos. - diz o diretor Paulo Thiago.

O produtor Leonardo Monteiro de Barros, da Conspiração, concorda.

- Se não fossem as leis de incentivo, Cláudio Torres, José Henrique Fonseca, Andrucha Waddington e Lula Buarque de Hollanda não seriam diretores de cinema - diz, citando cineastas da produtora. - Não existe auto-sustentabilidade quando se tem apenas de 15% a 30% do mercado.

Daí, ele frisa, a importância de aumentar a produção:

- Se queremos crescer, o que temos que fazer é produzir mais filmes. Hoje, lançando de 30 a 40 filmes por ano, o que podemos almejar é ter 15% do mercado, não mais. Acima disso é um resultado excepcional.

O diretor Fernando Meirelles tem opinião semelhante:

- Temos que fazer o que está sendo feito: produzir muitos filmes. Alguns vão dar certo, outros não. Filme bom se consegue assim, com volume. Os EUA produzem atualmente perto de 600 filmes por ano, dos quais 550 são o mais puro lixo. Vinte são bons e 12, muito bons. Ou seja, 2%.

Para o produtor Diler Trindade, o pequeno número de salas é o maior problema.

- Em 1982, o filme nacional detinha 36% do mercado. Eram produzidos cem filmes por ano e havia mais de três mil cinemas, com uma média de 600 assentos por sala. Hoje, mal chegamos a duas mil salas, com média de 300 assentos.

José Carlos Avellar, consultor da área de cinema do Programa Petrobras Cultural (PPC), também põe o foco na exibição e na distribuição.

- A questão central não está em aumentar a produção, e sim a circulação de filmes no país.

Em sua queixa à atual distribuição de recursos, Barretão criticou ainda o processo de escolha dos projetos:

- Em algumas estatais, são constituídas comissões externas de seleção, formadas em geral por críticos, cineclubistas e pesquisadores de cinema. São pessoas sem nenhum compromisso com a política comercial, que estão estrangulando o lado industrial do cinema. Está se instituindo uma censura estética gravíssima no país, que levou o cinema ladeira abaixo nos últimos dois anos.

Até ano passado, não existiam comissões externas. Os projetos a serem patrocinados eram escolhidos por comissões internas. Com o PPC, o critério mudou. Mas Avellar ressalta que só um dos sete integrantes da comissão é crítico - os demais são exibidores, produtores e realizadores. Ele rebate as críticas de Barretão dizendo que o critério primeiro é a qualidade.

- Além disso, é preciso observar o conjunto dos projetos e buscar representantes das diversas tendências. Temos que dialogar com a oferta de projetos que chegam e refletir isso na escolha. Em nenhum momento houve atendimento a produções regionais superior à proporcionalidade dos projetos que chegaram.

O primeiro edital de cinema do PPC, anunciado no ano passado, contemplava cineastas iniciantes em longa, como Pola Ribeiro (com "Jardim das folhas sagradas"), veteranos como Nelson Pereira dos Santos ("Brasília, 18 por cento") e jovens já consagrados, como Andrucha ("Casa de areia").

Barretão diz achar fundamental o cinema experimental e de renovação de linguagem, mas acredita que as fontes de recursos devem ser outras. Sugere uma cota nas estatais e cita a medida provisória que trata da arrecadação da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional):

- Parte é destinada à Secretaria do Audiovisual para financiar o cinema de renovação.

Diler sugere políticas diversas para as duas categorias: o patrocínio a filmes orientados para o mercado viria com a Lei do Audiovisual, "que pressupõe investimento e a correspondente intenção de retorno comercial ao investidor". E para os demais ele propõe uma nova versão da Lei Rouanet, "que é de patrocínio a fundo perdido, com 100% de incentivo fiscal".

Meirelles diz que é favorável a que haja muitos tipos de balcões de financiamento, com critérios de seleção diversos:

- Acho bom o critério atual, onde cada empresa determina no que quer investir. O investimento em renovação, em novos diretores, é fundamental. Sem isso, aí sim, o cinema brasileiro fica comprometido. O cinema argentino está dando um pulo no mundo todo apoiado numa nova geração de diretores.

Gustavo Acioli está conseguindo fazer seu primeiro longa, que tem o nome provisório de "A noite tem razão", graças a um concurso do MinC que privilegia estreantes.

- Salvou minha vida - diz ele, que fez quatro curtas com o dinheiro do próprio bolso. - Para gente da minha geração, os caminhos da captação são muito nebulosos. O edital do MinC contemplou dez filmes. A qualidade de produção vai subir e Barretão vai queimar a língua. Comente aqui:
Reportagem sobre projeto cultural em Santa Cruz

Periferia que se mostra sem caricatura - Vida de jovens carentes da Zona Oeste é transformada pelo contato com a arte

Dizer que Uésley Pereira Santos, de 27 anos, enfrentava uma maratona para ter aulas de teatro não é força de expressão ou recurso gasto de escritor pouco criativo. Ele andava mais de 40 quilômetros para ir e voltar de casa até a Cidade das Crianças, em Santa Cruz. No caminho, dava umas paradinhas para descansar o corpo, olhava os pés de manga e torcia para cair alguma fruta e aplacar a fome.

- Ia a pé porque não tinha dinheiro. Mas vinha feliz da vida e subia no palco como se nada tivesse acontecido - lembra-se Uésley.

Hoje, ele vai de ônibus. Afinal, deixou de vender empadas na rua, estagia numa companhia de teatro e atua na peça "A comédia do coração", de Ariano Suassuna. Mas as mudanças não se resumiram à troca de profissão:

- Minha visão de mundo era um pouco fechada. Não entendia as coisas com clareza e não tinha senso crítico. Hoje, espelho-me em Peter Brook, quero levar o teatro até as pessoas.

Uésley é aluno do projeto Reperiferia, criado em agosto passado pelo diretor Marcus Vinicius Faustini, que, sem maiores alardes, vem transformando a vida de centenas de jovens da Zona Oeste. Para começo de conversa, Faustini e sua companhia de teatro, a CTI, romperam com a idéia de que eles devem ser submetidos a uma dieta de filmes-pipoca e comédias popularescas. A garotada estuda Brecht, discute "Vidas secas", vê "Dogville", monta textos de Suassuna e lê livros como "Épuras do social: como podem os intelectuais trabalhar para os pobres", de Joel Rufino dos Santos.

- A palavra que eles mais falam aqui é dialética. Dizem: "Isso não é dialético. Vocês não botaram contradição" - conta Faustini, diretor de peças como "Capitu", "Eles não usam black-tie" e "Hoje é dia de rock", que também está finalizando o filme "Clóvis de guerra não usa sombrinha".

Há poucas semanas, Faustini reuniu os alunos e fez testes para a escolha do protagonista de seu próximo longa-metragem, "Nike". É baseado na história real de um menino da favela que, ao escrever o nome, pôs Marcelo Nike da Silva.

- Que mundo é este em que a gente deseja pôr no meio do nome uma marca? - surpreende-se o cineasta.

No teste, Faustini pede que eles falem de sua relação com as marcas.

- Tenho um colega feio pra caramba que fica geral com as meninas porque tem Adidas. Eu botei uma camisa hipercool e parece que as espinhas tinham até saído. Quero ser notado, ninguém gosta de ser invisível - diz um rapaz.

Após alguns dias de testes, saiu o ator que vai viver Nike. Ou melhor, saíram, porque o personagem será interpretado por dois jovens. Um deles é Elvis. O outro também. Elvis Marcelo de Oliveira, 17 anos, mora em Santa Cruz e trabalha como camelô no trem. A mãe adora Elvis Presley. Elvis Chagas Medeiros, 23 anos, mora em Itaguaí e está sem trabalho. O pai também é fã do cantor americano.

Na semana passada, os dois rodaram no Odeon as primeiras cenas, após terem visto "Os incompreendidos", de Truffaut. O câmera é Carlos Vinícius Borges, o Cavi, da locadora Cavídeo, que também dá aulas no projeto. Era a primeira vez que Elvis Marcelo ia ao cinema.

- Vou mostrar para meu pai que ele estava errado em querer que eu seguisse a carreira militar.

Elvis Chagas se identificou com o garoto de "Os incompreendidos" porque, como o personagem, "até agora só colecionou fracassos". "Nike" discute a sociedade de consumo através de um menino que chega a ir ao Xingu tirar satisfação com um índio que tem desenhado nas costas o símbolo da Nike. Sua melhor amiga é uma menina cega que não entende a fixação dele com as marcas. As cenas ficcionais estão sendo criadas por gente como o autor e diretor Roberto Alvim e o escritor Julio Ludemir.

Faustini voltou os olhos da Zona Sul para a periferia com um desejo de retribuição - ele é de Santa Cruz e foi ali que começou a fazer teatro, num banco de praça. Ele é responsável pelas atividades culturais da Cidade das Crianças e o bem aparelhado teatro do lugar serve ainda de sede para a CTI.

- Queremos apresentar a periferia de outra maneira, sem caricatura - diz. - Além disso, precisamos de novas imagens dessa cidade. A câmera do Rio tem que sair do mar e ir para dentro.

Cultura como expressão econômica - Grupo de teatro programa ir à Alemanha em 2006, para os 50 anos da morte de Brecht

O projeto de Faustini, patrocinado pela Secretaria municipal de Esportes e Lazer, e com apoio da Secretaria municipal das Culturas, desdobra-se em vários braços. Ele leva para o teatro espetáculos elogiados. Mais de cem mil moradores já assistiram de graça a atrações como Boitatá, Nós do Morro, Carroça de Mamulengos, Daniel Azulay, Bia Bedram e Luiz Carlos Vasconcelos. Também se apresentam alunos de arte, numa parceria com a Secretaria municipal de Educação. Faustini criou ainda uma espécie de Fate dos pobres, numa referência ao Fundo de Apoio ao Teatro da prefeitura.

- Identificamos mais de 80 grupos amadores na região. Com o Cena Oeste, vamos escolhendo alguns, que recebem R$1 mil por três meses.

O diretor inaugurou ainda o Cineclube Piracema e vai lançar a revista "Poéticas da Periferia". A turma prepara a montagem de um texto inédito de Suassuna - uma versão em cordel de "Romeu e Julieta". Eles também já encenaram o espetáculo "Brecht n¿ funk" e trabalham em nova peça sobre o dramaturgo. A idéia é ir em 2006 para a Alemanha, por ocasião dos 50 anos da morte de Brecht. Achou pouco? Pois há oficinas de maracatu, circo, literatura, jongo, cinema, teatro, pandeiro e ritmos latinos. Tudo de graça - ou 0800, como os alunos dizem.

Os pais, a princípio desconfiados, hoje reconhecem a importância do projeto Reperiferia.

- Quando comecei, meu pai me mandou trabalhar como cobrador de ônibus e depois em obra. Tive que sair de casa. Hoje faço estágio como operador de som e luz no projeto, e estou na Companhia do Invisível, do Alexandre Damasceno (ator da CTI). Conseguir viver de um emprego que me diverte é algo inédito - diz Antonio Carlos Félix, de 20 anos, que voltou a morar com os pais.

Junto com a empresa Let Consultoria, Faustini montou o projeto Cultura Dá Trabalho, e dois dos alunos do Reperiferia vão estagiar na Rede Globo.

- A cultura tem que ser vista por eles como possibilidade de expressão econômica - diz o diretor, visivelmente empolgado com a oportunidade que os jovens da periferia estão tendo de mostrar seu ponto de vista. - Eu estava desiludido com o teatro. Precisei trabalhar com as estrelas, subir a montanha, ver que o ar estava rarefeito, descer e começar tudo de novo. Comente aqui:
Reportagem com os 25 anos da CNN

A face mais internacional dos EUA se renova - CNN celebra 25 anos planejando mudanças tecnológicas e na programação para enfrentar a concorrência

ATLANTA, Georgia. O cantor Ricky Martin posou para fotos e deu um ou outro autógrafo. Mas não foi ele, nem o médico indiano Deepak Chopra, nem o presidente do Iraque - falando via satélite do Curdistão - a grande estrela da 14ª CNN World Report Conference, o encontro mundial de jornalistas que este ano celebrou o 25º aniversário da rede de notícias americana. O que todo mundo aqui queria ver eram figuras como a repórter Christiane Amanpour, o correspondente Jim Clancy e a âncora Zain Verjee, que representam hoje a cara da CNN - papel que no passado coube a Peter Arnett e Bernard Shaw.

Ted Turner, fundador da emissora, não está mais no comando, mas foi o grande homenageado dos três dias de conferência, que discutiu as principais questões do jornalismo atual, como a confiança - ou falta de confiança - do público na mídia, a questão árabe ou a tsunami, seis meses depois.

Eram 18h de 1º de junho de 1980 quando Turner provocou risadas em quase todo mundo ao anunciar um canal de notícias 24 horas no ar. Vinte e cinco anos depois, ninguém mais ri. Quando surgiu, a CNN (Cable News Network) tinha 225 funcionários e atingia 1,7 milhão de casas. Hoje, tem 3.600 empregados e alcança 260 milhões de residências. Cerca de 1,5 bilhão de pessoas podem ter acesso a algum dos 23 serviços da CNN. De canal de notícias doméstico, virou, principalmente a partir da Guerra do Golfo (1991), um conglomerado que, com o lema "Seja o primeiro a saber", engloba serviços como CNN Internacional, CNN Airport Network, CNNRadio e CNN.com. É cada vez mais internacional, a ponto de contar com representantes de 50 países e proibir o uso da palavra "estrangeiro", sob risco de demissão.

Durante o encontro, os principais executivos da rede fizeram um balanço dos 25 anos, falaram da saúde atual da emissora e fizeram projeções.

- Em 2004, tivemos mais lucro do que em qualquer ano da nossa história - disse Jim Walton, presidente da CNN, sem revelar números.

O modelo criado por Turner deu tão certo que cunhou a expressão efeito-CNN. A rede revolucionou a forma como a informação circula no mundo e provocou o surgimento de mais de 70 emissoras de notícias 24 horas no mundo. Mas a CNN enfrenta uma dor de cabeça, pelo menos em termos domésticos: a Fox News. A emissora de Rupert Murdoch já é líder no mercado a cabo de notícias dos EUA. Uma pesquisa do ano passado mostrou que 25% dos americanos assistem regularmente à Fox, contra 22% da CNN. Mas revelou que 32% dos telespectadores acreditam em tudo ou na maior parte do que diz a CNN, contra 25% da Fox, vista preferencialmente pelos conservadores.

O público-alvo da emissora é a faixa de 5% a 10% de "cidadãos globais" que viajam, são formadores de opinião e têm o inglês como segunda língua. A concorrência - que acontece também com os canais locais e a internet - tem feito a CNN se mexer. As maiores mudanças que vêm por aí são tecnológicas.

- A tecnologia vai mudar mais no próximos cinco anos do que nos 25 anteriores, em relação ao jeito como a gente consome mídia - disse Walton. - Queremos que o público tenha acesso a nossa informação em qualquer lugar do mundo, seja num cruzeiro, num ginásio, em casa ou no escritório. E em qualquer plataforma, seja telefone celular, pager, ou personal video record.

Os executivos disseram que, na briga pela audiência, não vão abandonar o que chamam de princípios básicos da emissora: "dar uma informação oportuna, de forma precisa, sem preconceitos e com múltiplos ângulos, levando o telespectador aonde a notícia está".

- Poderíamos aumentar a audiência sendo mais sensacionalistas e apresentando uma opinião mais engajada, mas a qualidade cairia. Felizmente para nós, o bom jornalismo é um bom negócio - disse Walton. - A imparcialidade está no nosso DNA.

Chris Cramer, diretor da CNN Internacional, rebateu críticas de que a emissora mostraria uma visão americana demais:

- Interessante é que aqui nos EUA ouvimos que somos um canal antiamericano e lá fora, um canal pró-americano. O que significa que estamos fazendo nosso trabalho.

Durante a conferência, Turner aproveitou para dar uma alfinetada nos rumos da rede:

- Eu gostaria de nos ver retornando um pouco mais à cobertura internacional, no aspecto doméstico, e ter um pouco mais de reportagens sobre meio ambiente. E talvez um pouco menos da perversão do dia - disse, numa clara referência ao caso Michael Jackson.

Entre as novas atrações, está o programa "Quest", que estréia dia 9 de julho e traz Richard Quest atrás de gênios para descobrir o segredo do sucesso deles. Também estreará um programa de humor comandado por John Stewart. De olho no público mais jovem, a emissora fez uma parceria com a MTV que rendeu dois programas, um deles sobre Aids e o outro sobre a tsunami. Isso significaria que a CNN, em busca de audiência, está fazendo uma opção pelo entretenimento, transformando jornalismo em show? Cramer garante que não:

- Estamos tornando interessantes histórias que já são significativas. O que é muito diferente.

*O repórter viajou a convite da CNN International

CORPO A CORPO com CHRISTIANE AMANPOUR

'É tão perigoso... mas você não pode deixar de ir'

ATLANTA, Georgia. Aos 47 anos, Christiane Amanpour é a repórter de TV mais conhecida do mundo. Como correspondente, cobriu guerras no Iraque, no Afeganistão, no Irã, no Paquistão, na Somália, em Ruanda e nos Balcãs. Nascida na Inglaterra, filha de pai iraniano, casada com James Rubin, porta-voz do Departamento de Estado no governo Clinton, é uma das estrelas da CNN, onde trabalha desde 1983.

- Na época da guerra no Iraque, você criticou a cobertura da mídia, inclusive a da CNN. Disse que a mídia foi intimidada pelo governo Bush...

CHRISTIANE AMANPOUR: E Jim (Jim Walton, presidente da CNN) respondeu que eu estava falando por mim mesmo. Mantenho o que disse. Se você olhar para o que estava acontecendo durante a guerra, vai descobrir que muitas pessoas concordam com o que eu falei. É preciso entender, no entanto, que era uma situação pós-11 de setembro, os Estados Unidos tinham sido atacados pela primeira vez, era um momento traumático. Mas acho que as coisas mudaram desde então. Se você olhar as reportagens que estão sendo feitas agora, são realmente brilhantes. Se não fosse pelo "New York Times", pelo "Washington Post", pelo "Financial Times" ou a CBS News, não se teria ouvido falar de Abu Ghraib, Bagram ou Guantánamo.

- Como é cobrir uma guerra incorporada ao Exército americano?

AMANPOUR: Algumas pessoas diziam que a gente talvez não devesse sequer estar no Iraque. É tão perigoso... mas você não pode deixar de ir. E o único jeito de conseguir alguma notícia significativa é estando incorporado às tropas, porque há uma certa segurança. Estar incorporado é uma coisa boa, mas você não tem a noção completa. Um dos maiores desafios é tentar ter um cobertura multidimensional. Uma coisa é estar seguro incorporado às tropas e tendo a proteção dos tanques e das instalações americanas, outra coisa é ir de forma independente e falar com os iraquianos. Eu tentei e a CNN tentou muitas vezes, com variados graus de sucesso. Nós tentamos fazer uma reportagem sobre as vítimas civis e a única maneira era ir ao hospital e gravar um dia em que os caixões e os corpos viessem, e falar com os parentes. Foi uma coisa que fomos capazes de fazer. Não fomos bem-sucedidos em conseguir números significativos e, quando tentávamos ir às casas, eles não queriam, porque viravam alvos. Era perigoso para eles. Uma das coisas que nos deixaram pasmos durante a eleição é que podíamos cobrir o povo votando. Pensamos que não seríamos capazes.

- Como é ser uma correspondente de guerra?

AMANPOUR: É como um médico na emergência. Você vê pessoas chegando com terríveis ferimentos e não pode fraquejar, tem que se manter inteiro. Está ficando mais perigoso porque as pessoas estão efetivamente tentando nos matar. Mas eu estou mais consciente dos perigos e tenho meu colete à prova de balas. Não quero ser seqüestrada nem morta.

- Qual a sua maior conquista e o seu maior fracasso?

AMANPOUR: A maior conquista foi ter ficado na Bósnia por tanto tempo e ter convencido a CNN a manter o país e os Balcãs nas manchetes por cinco anos. E a maior frustração foi Ruanda. Nós não fizemos nosso dever de casa, falhamos em manter os holofotes sobre o país e, em três curtos meses, houve um holocausto, um milhão de pessoas morreram. Foi um grave fracasso da nossa parte e da parte da comunidade internacional. Nós nunca vamos nos recuperar, mas é uma lição. E este ano, infelizmente, estamos tentando muito cobrir Darfur, no Sudão, mas não estamos conseguindo. Estamos esperando pelos vistos de entrada, mas até agora não conseguimos. É devastador.

- Você tem filhos?

AMANPOUR: Um menino de 5 anos. Eu o protejo, não digo a ele o que faço. Há alguns meses, nós estávamos de férias e falei: "Você é meu companheiro de viagem favorito, adoro viajar com você." Ele disse: "Sim, mamãe. Mas quando é que eu posso ir para o Iraque e o Afeganistão?". Ele acha que são destinos turísticos!

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